
As vacinas já utilizadas contra a variante Zaire do vírus ebola podem oferecer uma proteção parcial contra o vírus Bundibugyo, responsável por surtos registrados atualmente na República Democrática do Congo e em Uganda.
Um estudo publicado em 22 de julho no New England Journal of Medicine mostrou que esses imunizantes são capazes de estimular a produção de anticorpos que também reconhecem essa variante, embora ainda não haja confirmação de que isso seja suficiente para prevenir a doença.
A descoberta pode ser importante porque, até o momento, não existe uma vacina licenciada especificamente para o vírus Bundibugyo. Como o desenvolvimento de um novo imunizante leva anos, pesquisadores investigam se as vacinas já disponíveis podem ser utilizadas enquanto uma alternativa específica não chega.
Na última quarta-feira (22/7), a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um balanço sobre o surto de ebola declarado em maio na República Democrática do Congo. Segundo a entidade, o país já confirmou 2.473 casos da doença e 999 mortes. Em Uganda, foram registrados 20 casos e duas mortes.
Para avaliar se as vacinas existentes poderiam provocar uma resposta contra o vírus Bundibugyo, os pesquisadores analisaram 179 amostras de sangue coletadas anteriormente em um grande estudo realizado na África Ocidental.
As amostras pertenciam a adultos e crianças que haviam recebido um dos dois esquemas de vacinação licenciados contra o ebola Zaire. Os cientistas avaliaram a resposta imunológica 28 dias e três meses após a aplicação das vacinas.
Em vez de vacinar novos participantes, a equipe utilizou um teste laboratorial capaz de verificar se os anticorpos produzidos após a vacinação também conseguiam reconhecer proteínas presentes na superfície do vírus Bundibugyo.
Os resultados mostraram que ambos os esquemas vacinais estimularam a produção de anticorpos capazes de reconhecer o vírus Bundibugyo. A resposta foi menor do que aquela observada contra a variante Zaire, para a qual as vacinas foram desenvolvidas, mas permaneceu detectável.
No caso da vacina rVSV, esses anticorpos foram identificados 28 dias após a vacinação e continuaram presentes três meses depois. Já na vacina Ad26.MVA, a resposta aumentou ao longo desse período.
Os pesquisadores explicam que esse fenômeno é conhecido como resposta cruzada, o que significa que anticorpos produzidos para combater uma variante do vírus também conseguem reconhecer outra variante relacionada.
Apesar dos resultados, os autores destacam que o estudo foi realizado apenas em laboratório. Os experimentos demonstraram que os anticorpos conseguem se ligar ao vírus Bundibugyo, mas ainda não comprovam que essa resposta seja suficiente para impedir a infecção ou evitar casos graves.
Segundo os pesquisadores, serão necessários novos estudos e ensaios clínicos para confirmar se as vacinas já armazenadas em estoques internacionais podem ser utilizadas durante surtos provocados por essa variante.
Acredita-se que o vírus ebola seja transmitido inicialmente de morcegos frugívoros para seres humanos por meio do contato com animais infectados ou com seus fluidos corporais. Depois que a infecção se instala, o vírus também pode ser transmitido entre pessoas pelo contato com sangue e outros fluidos corporais.
A doença costuma apresentar sintomas semelhantes aos de uma gripe, como febre, dores no corpo e mal-estar. Nos casos mais graves, pode provocar hemorragias, choque e falência de múltiplos órgãos. Como profissionais de saúde mantêm contato direto com pacientes infectados, também fazem parte dos grupos mais expostos durante os surtos.
