
Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) identificaram uma nova espécie de réptil que viveu há cerca de 230 milhões de anos. O animal foi descrito a partir de um crânio fóssil encontrado no município de Agudo, na região central do Rio Grande do Sul, uma área conhecida pela grande concentração de fósseis do período Triássico.
O estudo foi publicado nessa quarta-feira (15/4) na revista científica Royal Society Open Science e descreve a espécie chamada Isodapedon varzealis, pertencente ao grupo dos rincossauros, répteis herbívoros que viveram antes da expansão dos dinossauros.
Escavado em 2020, o fóssil foi encontrado em um sítio fossilífero localizado no território do Geoparque Mundial Unesco Quarta Colônia. Após a coleta, o material passou por um processo de preparação no laboratório do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, da UFSM.
Como o crânio é bastante frágil, a remoção da rocha que o envolvia foi feita com instrumentos delicados, como bisturis e agulhas, permitindo que os pesquisadores analisassem as estruturas anatômicas em detalhes.
Os cientistas identificaram características incomuns no crânio que indicavam se tratar de uma espécie ainda desconhecida. O fóssil preserva parte do crânio, incluindo maxilares e mandíbulas com uma estrutura diferente das observadas em outros rincossauros da mesma formação geológica.
Nos rincossauros, os dentes costumam formar placas divididas por uma fenda e com formatos assimétricos. No novo animal, porém, essas placas apresentam proporções mais equilibradas. A característica inspirou o nome Isodapedon, que significa “placas dentárias iguais”. Já o termo varzealis faz referência ao local da descoberta, na região conhecida como Várzea do Agudo.
Com base no tamanho do crânio, os pesquisadores estimam que o animal tivesse entre 1,2 e 1,5 metro de comprimento. O formato triangular da cabeça e o bico pontiagudo lembram o bico de papagaios atuais. Esse tipo de estrutura provavelmente ajudava o réptil a cortar plantas ou a escavar o solo em busca de raízes e tubérculos.
A análise evolutiva mostrou que a nova espécie possui parentes próximos encontrados na Escócia, especialmente um rincossauro chamado Hyperodapedon gordoni. Segundo os pesquisadores, essa relação ajuda a explicar como animais semelhantes podiam viver em regiões hoje muito distantes.
Durante o período Triássico, quando esse réptil viveu, os continentes ainda estavam unidos em um único supercontinente chamado Pangeia, o que permitia que diferentes espécies se espalhassem por grandes áreas do planeta.
A descoberta reforça a ideia de que os ecossistemas da América do Sul e da Europa compartilhavam animais semelhantes naquela época. Com a identificação da nova espécie, o Brasil passa a ter seis rincossauros conhecidos do período Triássico.
Os pesquisadores acreditam que essa diversidade pode ter sido resultado de diferentes estratégias alimentares. Cada espécie provavelmente se especializava em consumir tipos distintos de vegetação, o que ajudava a reduzir a competição entre elas.
O fóssil de Isodapedon varzealis faz parte do acervo científico do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, localizado no município de São João do Polêsine, no Rio Grande do Sul. O espaço reúne uma das principais coleções de fósseis do Triássico brasileiro e mantém uma exposição aberta ao público.
