
O ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), preso pela Polícia Federal nesta quinta-feira (15), foi o segundo candidato mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) nas eleições de 2026, com 197.178 votos. Presidente do União Brasil no estado e aliado de Flávio Bolsonaro (PL), Canella construiu sua trajetória política na Baixada Fluminense, onde exerceu os cargos de vereador, vice-prefeito e prefeito, além de três mandatos como deputado estadual.
A prisão ocorreu durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma organização criminosa armada suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavagem de dinheiro. Segundo a Polícia Federal, o esquema teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos. Também foi preso Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, que já havia sido alvo de uma fase anterior da investigação.
Márcio Correia de Oliveira, conhecido como Márcio Canella, iniciou sua carreira eleitoral em 2012, quando foi eleito vereador de Belford Roxo. Dois anos depois, conquistou seu primeiro mandato como deputado estadual, iniciando uma trajetória que o consolidaria entre os políticos mais votados do Rio de Janeiro.
Em 2016, foi eleito vice-prefeito de Belford Roxo na chapa de Wagner dos Santos Carneiro, conhecido como Waguinho. Durante parte do mandato, licenciou-se da Assembleia Legislativa para exercer a função no Executivo municipal. A relação política entre os dois se deteriorou posteriormente, e Canella passou a integrar o grupo de oposição ao antigo aliado.
O político voltou a conquistar mandatos na Alerj em 2018 e 2022. Na eleição de 2022, recebeu aproximadamente 181 mil votos, tornando-se o deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro naquele ano.
Em 2024, Canella foi eleito prefeito de Belford Roxo no primeiro turno, derrotando o grupo político de Waguinho. Assumiu o cargo em janeiro de 2025, mas renunciou em abril de 2026 para disputar uma vaga no Senado Federal.
A candidatura ao Senado, entretanto, não foi mantida. Após ser alvo da Polícia Federal em julho, Canella decidiu disputar novamente uma cadeira na Assembleia Legislativa. Em outubro, recebeu 197.178 votos, conquistando seu quarto mandato como deputado estadual, que terá início em 2027.
Belford Roxo permaneceu como seu principal reduto eleitoral. O município concentrou 133.956 votos, aproximadamente 68% do total recebido pelo político.
Presidente do União Brasil no Rio de Janeiro, Canella mantém uma relação política com Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República. Antes de decidir disputar a Alerj, o ex-prefeito era apontado como um dos nomes apoiados pelo senador para a eleição ao Senado pelo estado.
A articulação eleitoral também envolvia Rogéria Bolsonaro, ex-mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro e mãe de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, que era cotada para ocupar uma das suplências da candidatura de Canella.
A possibilidade de disputar o Senado perdeu força após a prisão de julho e mudanças nas articulações partidárias. A federação formada pelo União Brasil e pelo PP também se afastou da aliança com o PL no estado, alterando os planos eleitorais do ex-prefeito.
Ao longo da carreira, Canella passou por diferentes legendas, incluindo PHS, PSL e MDB, antes de chegar ao União Brasil. Sua trajetória política esteve concentrada principalmente na Baixada Fluminense, região em que construiu sua base eleitoral e exerceu funções no Legislativo e no Executivo.
A atuação pública de Canella inclui propostas e iniciativas relacionadas à segurança pública, infraestrutura urbana e administração municipal. Durante sua passagem pela Prefeitura de Belford Roxo, o político anunciou medidas voltadas ao reforço da segurança e à atuação da Guarda Municipal.
O tema também aparece nas manifestações de sua defesa diante das investigações. Ao responder às suspeitas de ligação com grupos criminosos, Canella afirmou que sua administração havia criado programas destinados ao enfrentamento de organizações criminosas no município.
Na política estadual, sua trajetória foi marcada pela concentração de votos na Baixada Fluminense e pela participação em diferentes alianças partidárias. A aproximação com Flávio Bolsonaro ganhou destaque durante as articulações para as eleições de 2026.
Antes da operação desta quinta-feira, Canella já havia sido preso em 7 de julho, durante a sexta fase da Operação Unha e Carne. Na ocasião, policiais federais cumpriam um mandado de busca e apreensão quando encontraram um fuzil calibre 5,56 no veículo utilizado pelo ex-prefeito.
A arma, de uso restrito, levou à prisão em flagrante. Segundo a investigação, o armamento pertencia ao acervo da Polícia Militar. A defesa de Canella afirmou que o fuzil estava sob responsabilidade do policial militar encarregado de sua escolta e que a documentação correspondente havia sido apresentada à Justiça.
Em 10 de julho, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a soltura do político e substituiu a prisão preventiva por medidas cautelares, incluindo uso de tornozeleira eletrônica, entrega do passaporte e suspensão do porte de arma.
Na decisão, Moraes destacou que a alegação da defesa sobre a responsabilidade pelo armamento ainda deveria ser esclarecida no decorrer das investigações.
Canella também é investigado por suspeitas de relações com integrantes de grupos paramilitares que atuam na Baixada Fluminense. Em setembro, a Procuradoria Regional Eleitoral (PRE) pediu o indeferimento de sua candidatura à Alerj, citando elementos que, segundo o órgão, indicariam vínculos político-administrativos com pessoas associadas a milícias.
Entre os pontos apresentados pela Procuradoria estão as nomeações de Fábio Augusto de Oliveira Brasil, conhecido como Fabinho Varandão, e Luiz Eduardo Santos de Araújo, conhecido como Eduardo Araújo, para cargos na administração municipal de Belford Roxo.
A Procuradoria também mencionou a presença de pessoas ligadas a lideranças de milícias em estruturas políticas associadas ao ex-prefeito. Os investigadores apontam suspeitas de relações com grupos que atuam em diferentes localidades da Baixada Fluminense.
A defesa de Canella negou envolvimento do político com milícias e sustentou, no processo eleitoral, que ele não poderia ser responsabilizado por atos praticados por terceiros. Os advogados também argumentaram que as nomeações questionadas ocorreram de forma legítima e que os nomeados foram exonerados em setembro de 2025.
Em 29 de setembro, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) rejeitou as impugnações e autorizou o registro da candidatura. A decisão foi tomada por maioria, após a rejeição unânime das questões preliminares. A autorização para disputar a eleição não encerrou as investigações criminais conduzidas contra o político.
Nesta quinta-feira (15), Canella voltou a ser preso durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga a utilização de postos de combustíveis como estrutura para ocultação de recursos de origem criminosa. A Polícia Federal cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em municípios do Rio de Janeiro. Além de Canella e do ex-secretário Marcus Amim, quatro inspetores da Polícia Civil foram presos.
A Justiça determinou ainda o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas vinculadas à investigação. Desse total, 96 são postos de combustíveis suspeitos de integrar o esquema de lavagem de dinheiro.
De acordo com um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a organização investigada movimentou mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.
Os investigados poderão responder, conforme a responsabilidade individual, por organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, além de outros crimes eventualmente identificados.
A operação integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para investigar organizações criminosas no estado do Rio de Janeiro, conforme diretrizes estabelecidas pelo STF no âmbito da ADPF 635.
