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Por que o cérebro tenta prever o pior? Entenda os sinais de alerta

A cena é mais comum do que a gente imagina: o namorado ou a namorada pede para o parceiro (ou a parceira) fazer uma chamada de vídeo tarde da noite, quando ele/ela está em viagem. A intenção por trás desse pedido não tem, muitas vezes, relação com saudade, mas sim com ciúme e obsessão por controle, para garantir que não há mais ninguém no quarto.

Essa necessidade ferrenha de querer controlar cada detalhe do que o outro está fazendo tem explicação em nossos ancestrais. “Ela tem raízes evolutivas, neurológicas e cognitivas. Evolutivamente falando, o cérebro humano desenvolveu um sistema de detecção de ameaças para garantir a nossa sobrevivência”, explica o psicólogo Thiago de Paula.

“Isso que a gente chama hoje de necessidade de controle é, na origem, um mecanismo adaptativo de antecipação de um possível perigo. O problema é que esse sistema opera com um viés de falso positivo, ou seja, é melhor errar achando que há perigo e estar preparado para isso, do que errar achando que não há e ser surpreendido”, destaca.

“A gente evita ao máximo ser surpreendido, por isso tenta antecipar e controlar. Um exemplo clássico disso é a ‘catastrofização’, quando a mente antecipa sempre o pior cenário possível, enquanto a gente tenta controlar todas as variáveis. É como se o cérebro dissesse: ‘Se eu controlar tudo, nada de ruim vai acontecer’”, pondera o psicólogo.

Um dos sinais claros de que a pessoa está desperdiçando energia com algo que está fora do controle é o que Thiago de Paula chama de “ruminação excessiva”. “É quando a pessoa fica repetindo mentalmente situações do passado como: ‘Se eu tivesse feito diferente, se eu tivesse feito X ao invés de Y, se eu não tivesse aceitado, seria diferente’”.

Outro sinal cognitivo é a preocupação antecipatória, quando se passa a ensaiar mentalmente cenários futuros e improváveis. “Com isso, muitas vezes a pessoa nem age, porque ela fica dizendo a si mesma que, se fizer B, algo vai acontecer”, diz. Pior mesmo é quando ficamos presumindo o que os outros estão pensando, sem nenhuma evidência.

Os exemplos acima são sinais cognitivos, mas há também marcadores comportamentais. Nesse caso, o mais recorrente é a microgestão de relacionamentos, quando a pessoa quer ajustar o tom de cada mensagem, ação ou palavra, revisando-as excessivamente nos diversos contextos. Há ainda a dificuldade de delegar, por achar que ninguém fará direito.

Há também os sinais emocionais de pessoas que estão patologicamente tentando ter controle sobre tudo. “Irritabilidade geralmente desproporcional a imprevistos pequenos é um exemplo. É, por exemplo, um trânsito que acontece, um atraso, e a pessoa acaba fazendo uma tempestade em copo d’água. Isso acaba gerando uma fadiga mental constante”, salienta.

“Em relação a todos esses sinais, a gente tem que pensar o seguinte: um pouco disso acontece, é normal. Quando é patológico, é excesso. É quando esses comportamentos que eu listei começam a atrapalhar a vida da pessoa, que não dorme ou não trabalha direito, se sobrecarregando o tempo todo. A pessoa está o tempo todo estressada”, analisa.

Ele assinala que um controlador não é um tipo, mas sim um estado que qualquer um pode adotar quando a sensação de vulnerabilidade aumenta. “Isso se torna um problema quando vira um padrão excessivo e constante”, avisa. Os casos mais evidentes envolvem perfeccionistas e indivíduos com histórico de imprevisibilidade.

A tecnologia também estimula esse caráter obsessivo. “O design das plataformas digitais é propositalmente pensado para que a gente tenha estímulos em intervalos imprevisíveis. São curtidas, notificações e mensagens que podem chegar a qualquer momento. A gente fica preso nesse ciclo o tempo todo, acompanhando, verificando e tentando alimentar a falsa ideia de que temos o controle das coisas”.

Desistir é palavra proibida

Outro lado da obsessão por controle é a ideia de desistência, que é bastante malvista na sociedade. O escritor e pesquisador Alexandre Gossn salienta que, dentro da evolução da humanidade, a desistência poderia ser fatal, já que geraria chances menores de adaptação a mudanças climáticas e a longas jornadas migratórias.

“Se na Antiguidade e na Idade Média a perseverança estava mais associada a resistir e aceitar a vontade de Deus, na era moderna, com o advento do capitalismo e da crença de que tudo posso se tiver as ferramentas certas, o sucesso ‘aqui e agora’ tomou o lugar do Paraíso. Logo, desistir se tornou uma vergonha, porque se pensa que o sucesso só depende de si mesmo”, analisa.

Gossn afirma que não há espaço na crença moderna para concebermos que nem sempre alcançamos o que desejamos – seja porque podemos não ser aptos, seja porque faltou sorte, porque mudamos de objetivos ou porque descobrimos que o custo para obter esse “sucesso” é alto demais.

“Há um cenário vendido de que a vitória, o sucesso absoluto, está ao alcance dos 8 bilhões de habitantes do planeta. Todos podem ser um Elon Musk, basta querer e se esforçar. Essa é uma crença de exigência absurda, que torna os anseios de cada um de nós homogêneos demais. A obrigação do sucesso é uma forma de opressão discreta e muito eficaz, que atende a diversos interesses econômicos”, salienta.

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