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Por que brasileiros estão indo morar no Paraguai?

Casais recém-casados, empreendedores, aposentados e trabalhadores remotos estão entre os brasileiros que decidiram cruzar a fronteira rumo ao Paraguai em busca de menos impostos, sensação de segurança e custo de vida menor.

Nas redes sociais, vídeos que mostram rotina, aluguel barato e facilidade para empreender ajudaram a impulsionar uma narrativa que passou a chamar o país vizinho de "Nova Suíça" da América do Sul.

O que aconteceu

O Paraguai registrou crescimento no número de pedidos de residência de estrangeiros. De janeiro a março de 2026, o país recebeu 18.071 solicitações, alta de 85% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Dados do Itamaraty apontam que o Paraguai abriga uma das maiores comunidades brasileiras no exterior. É a maior na América do Sul e a terceira maior no mundo, atrás de EUA e Portugal. Redes sociais passaram a impulsionar conteúdos sobre morar no Paraguai, com foco em impostos baixos, segurança, liberdade econômica e oportunidades para empreender.

'A gente queria um lugar de oportunidades'

Gissely Barcelos, 22, e Josias Weber, 26, deixaram Porto Alegre pouco depois do casamento para começar uma nova vida em Luque, cidade vizinha a Assunção. Há cerca de um mês no Paraguai, o casal diz que a mudança foi motivada por uma mistura de fatores: custo de vida, segurança e desejo de empreender.

"Para um casal que queria construir a vida, não tinha como a gente continuar onde a gente estava", disse Gissely.

Os dois trabalham nas áreas de comunicação, marketing e tecnologia e dizem enxergar no Paraguai um mercado menos saturado do que o brasileiro. "A gente viu, principalmente para a nossa área de trabalho, que aqui está um terreno muito fértil", diz Josias.

Gissely Barcelos e Josias Weber se mudaram para o Paraguai

O casal conta que se surpreendeu positivamente com a receptividade dos paraguaios e com a estrutura encontrada no país. Em Luque, dizem pagar cerca de R$ 2.000 por um apartamento semimobiliado, com ar-condicionado, sacada e cozinha equipada.

Nem tudo, porém, foi fácil na adaptação. O principal choque veio na alimentação. O feijão, básico na mesa brasileira, é mais caro e menos comum no Paraguai. "A gente só vê brasileiros comendo feijão", brinca Gissely.

Mesmo reconhecendo que o Paraguai ainda precisa avançar em infraestrutura, Josias vê sentido no apelido que circula nas redes. Eles compartilham a rotina nas redes sociais e até criaram um perfil, 'Nós no Paraguay', para falar sobre a jornada no novo país.

"A gente vê sim que faz sentido o Paraguai ser comparado à nova Suíça de maneira econômica", contou Josias Weber.

'Eu vendi tudo e fui embora com R$ 400'

A história de Jackelinne Galhardo, 32, segue outra linha. Ex-moradora de Campo Grande (MS), ela diz que decidiu voltar ao Paraguai — onde já havia vivido na infância — depois de anos enfrentando dificuldades financeiras no Brasil.

Jackelinne Galhardo saiu do Brasil rumo ao Paraguai com R$ 400

Na época, Jackelinne tinha uma esmalteria e conta que pagava cerca de R$ 2.500 de aluguel, além de contas altas de água e luz. Antes da mudança, quitou mais de R$ 12 mil em dívidas.

"Eu trabalhava e sobrevivia. Qualidade de vida era zero. Vendi tudo que eu tinha e vim embora com R$ 400", afirmou Jackelinne Galhardo.

Hoje vivendo em Encarnación, ela afirma que encontrou uma vida mais leve, com sensação de acolhimento e menos pressão social. "Aqui não tem aquele negócio de você ter um carro e ser bem-visto. Se você anda a pé ou de carro, você tem o mesmo valor".

Jackelinne também faz alertas. Diz que brasileiros precisam chegar preparados financeiramente e aprender espanhol antes da mudança. Sobre a ideia de "Nova Suíça", ela evita exageros. "Nova Suíça eu não sei, mas é um abrigo de pessoas que querem uma vida real."

'O Paraguai é bom, mas não é para todo mundo'

Nem todos que atravessam a fronteira decidem ficar. Cristiano Lopes, 43, psicanalista, deixou o Rio de Janeiro e passou dois meses vivendo em Ciudad del Este, no Paraguai. Ele conta que gostou da experiência, que voltaria ao país e recomenda a região onde morou, na Área 2 da cidade. Ainda assim, decidiu retornar ao Brasil. "Eu percebi que o Paraguai não ia atender a expectativa pela qual eu fui, que era uma alavancagem financeira", relatou.

Cristiano Lopes passou dois meses vivendo em Ciudad del Este

Cristiano diz que chegou ao país preparado para ficar até seis meses sem trabalhar. Segundo ele, esse planejamento evitou uma mudança precipitada. "O Paraguai não é um país para você arrumar trabalho", afirma.

Ele critica conteúdos de redes sociais que, na visão dele, romantizam a mudança para o país vizinho e vendem uma imagem excessivamente positiva da experiência. O psicanalista diz ter conhecido brasileiros que venderam bens no Brasil e retornaram frustrados poucas semanas depois. "Eu sempre aconselho: vá primeiro como turista, fique 30 dias e entenda se aquilo realmente é para você."

Especialista vê fenômeno antigo com 'nova roupagem'

Para o sociólogo José Lindomar Coelho Albuquerque, professor titular da Unifesp e coordenador do Liminar (Laboratório de Investigação sobre Migração, Nação e Região de Fronteira), o movimento atual não nasceu agora, mas ganhou novas características. Segundo ele, o fenômeno começou ainda no século passado, mas se intensificou nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

Na época, milhares de brasileiros migraram para regiões rurais do Paraguai e deram origem ao fenômeno dos chamados "brasiguaios". Hoje, o pesquisador identifica três frentes principais: estudantes brasileiros que vão cursar medicina, empresários atraídos pelas maquilas e brasileiros influenciados por discursos de liberdade econômica e menor intervenção do Estado.

Albuquerque afirma que redes sociais e vídeos de brasileiros vivendo no Paraguai ajudam a criar um "efeito de chamada", atraindo novos interessados. Na avaliação do sociólogo, a expressão "Nova Suíça" não corresponde à realidade paraguaia. "Absolutamente inadequada", opinou.

Segundo ele, brasileiros com renda própria, aposentadoria ou trabalho remoto têm mais chance de adaptação. Já aqueles que vendem tudo no Brasil sem rede de apoio tendem a correr mais riscos. "Esses que vendem tudo sem nenhuma rede local são os mais arriscados."

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