
O intestino pode desempenhar um papel importante na formação das memórias, especialmente as relacionadas à alimentação. É o que sugere um novo estudo publicado em 4 de junho na revista Nature Communications, que identificou como sinais enviados pelo sistema digestivo ajudam o cérebro a registrar novas experiências.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos, e investigou a atuação do nervo vago, responsável por conectar o intestino ao cérebro. Até então, esse nervo era conhecido principalmente por participar do controle da digestão, da fome e da sensação de saciedade. Agora, os pesquisadores encontraram evidências de que ele também contribui para a formação da memória.
Em experimentos realizados com ratos, os pesquisadores observaram que, depois de consumir alimentos nutritivos, os animais apresentavam aumento da liberação de acetilcolina no hipocampo, região do cérebro responsável pelo aprendizado e pela memória.
A acetilcolina é um neurotransmissor importante para que novas lembranças sejam registradas. Quando a comunicação entre o intestino e o cérebro foi interrompida por meio do nervo vago, esse aumento deixou de ocorrer. Os animais também passaram a ter mais dificuldade para lembrar onde haviam encontrado alimento anteriormente.
Segundo os autores, isso indica que o intestino envia ao cérebro informações sobre o valor nutricional da refeição, ajudando a registrar essa experiência na memória.
Os pesquisadores também descobriram que o cérebro responde principalmente aos nutrientes presentes nos alimentos e não apenas ao sabor. Ratos que consumiram alimentos ricos em açúcar ou gordura apresentaram maior atividade cerebral relacionada à memória. Já aqueles que receberam líquidos doces, mas sem calorias ou com baixo valor energético, não mostraram a mesma resposta.
“Acreditamos que esse mecanismo tenha evoluído para ajudar os animais a se lembrarem de informações essenciais sobre fontes de alimento”, afirma Logan Lauer, primeiro autor do estudo, em comunicado.
Embora alimentos ricos em gordura e açúcar tenham estimulado o mecanismo em curto prazo, os pesquisadores observaram que o consumo frequente desse tipo de dieta produziu o efeito oposto. Animais alimentados por longos períodos com o padrão apresentaram uma comunicação mais fraca entre o intestino e o hipocampo e tiveram pior desempenho em testes de memória, mesmo depois que voltaram a receber uma alimentação saudável.
Para os autores, essa pode ser uma das explicações para a relação já conhecida entre obesidade, diabetes, alimentação inadequada e declínio cognitivo.
Os pesquisadores destacam que o estudo foi realizado em animais e que ainda será necessário investigar se o mesmo mecanismo ocorre em humanos. Mesmo assim, os resultados reforçam a importância da comunicação entre intestino e cérebro e podem contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias para preservar a memória e a função cognitiva, inclusive em doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
