
Um homem de 27 anos conseguiu produzir espermatozoides a partir de um tecido testicular que havia sido congelado quando ele ainda era criança. O caso é o primeiro a demonstrar que esse tipo de material, coletado antes da puberdade, pode voltar a funcionar anos depois no organismo adulto.
O paciente tinha 10 anos quando passou por um tratamento intenso para anemia falciforme. Antes da quimioterapia, médicos removeram parte de um dos testículos e preservaram o tecido em laboratório. A estratégia foi adotada porque, nessa fase da vida, meninos ainda não produzem espermatozoides, o que impede o congelamento de sêmen, técnica já usada em adultos.
Após 16 anos, fragmentos desse tecido foram reimplantados no corpo do paciente. Parte foi inserida no testículo restante e outra parte sob a pele do escroto. Um ano depois, os enxertos foram retirados para análise.
Os pesquisadores encontraram espermatozoides maduros em parte do material reimplantado. As células foram coletadas e congeladas. Segundo a equipe, elas apresentavam aparência normal, embora ainda seja necessário verificar se são capazes de fecundar um óvulo.
“Esta é uma descoberta importantíssima. Muito mais pessoas terão esperança de poder ter filhos biológicos”, disse Ellen Goossens, que liderou o estudo, em entrevista ao jornal The Guardian.
Os resultados foram publicados em 12 de março, em um artigo pré-impresso, que ainda não passou por revisão por pares.
Tratamentos como quimioterapia e radioterapia aumentam as chances de sobrevivência em doenças graves, mas podem comprometer a fertilidade. Em adultos, é possível preservar o sêmen antes do início do tratamento. Já em crianças, essa alternativa não existe.
Foi esse cenário que levou pesquisadores a testar, ainda nos anos 2000, o congelamento de tecido testicular em meninos. O material contém células-tronco que, no futuro, podem dar origem aos espermatozoides.
Na época, a técnica era considerada experimental e não havia garantia de que funcionaria em humanos. As famílias eram informadas de que se tratava de uma possibilidade incerta.
Segundo a pesquisadora, o novo caso é resultado direto dessas primeiras iniciativas. O estudo mostra que, ao menos em algumas situações, o tecido pode retomar sua função após ser devolvido ao organismo.
Apesar do avanço, ainda há limitações. Os espermatozoides produzidos não chegam naturalmente ao sêmen, já que o tecido reimplantado não se conecta às estruturas responsáveis pelo transporte dessas células. Por isso, qualquer tentativa de gravidez dependeria de técnicas como a fertilização in vitro.
Além disso, o estudo ainda não passou por revisão por pares, etapa importante na validação científica. Os pesquisadores também ressaltam que será preciso acompanhar outros casos para entender melhor a eficácia e a segurança do procedimento.
Mesmo assim, o resultado já é visto como um passo importante para ampliar as opções de preservação da fertilidade em pacientes jovens. A técnica pode, no futuro, oferecer uma alternativa para meninos que precisam passar por tratamentos agressivos e desejam ter filhos biológicos na vida adulta.
