
A demência é mais comum entre mulheres do que entre homens, e a diferença não pode ser explicada apenas pela maior expectativa de vida feminina. Um novo estudo sugere que parte dessa resposta pode estar na forma como fatores de risco conhecidos afetam o cérebro de cada sexo.
Publicada em 20 de maio na revista Biology of Sex Differences, a pesquisa analisou dados de 17.182 pessoas com 40 anos ou mais e concluiu que alguns indicadores associados à demência parecem exercer efeitos mais intensos sobre a cognição das mulheres.
Segundo os autores, além de apresentarem um número maior de risco, as mulheres também tendem a sofrer consequências cognitivas mais acentuadas em alguns casos.
“Nosso estudo sugere que as mulheres podem estar em maior risco de demência porque apresentam um número maior de fatores de risco e porque esses fatores reduzem a cognição em maior grau do que nos homens”, escreveram os pesquisadores.
Os cientistas avaliaram 13 fatores de risco relacionados à demência e compararam sua frequência e seus efeitos sobre o desempenho cognitivo de homens e mulheres.
Entre as mulheres, depressão, inatividade física e problemas de sono foram mais comuns. Já entre os homens, se destacaram perda auditiva, diabetes e consumo excessivo de álcool.
A análise mostrou que alguns indicadores estiveram associados a reduções mais significativas da cognição feminina. Pressão alta, perda auditiva e diabetes foram os exemplos mais claros.
O índice de massa corporal também chamou atenção. Um IMC mais elevado foi associado a pior desempenho cognitivo em mulheres na faixa dos 50 e 60 anos, mas essa relação não foi observada nas idades mais avançadas.
“Quando analisamos além dos fatores de risco mais comuns, descobrimos que alguns têm um efeito desproporcionalmente maior na cognição das mulheres”, afirma a neurocientista Megan Fitzhugh, da Universidade da Califórnia em San Diego, em comunicado.
De acordo com a pesquisadora, os resultados indicam que estratégias de prevenção podem ser mais eficazes quando levam em conta não apenas a frequência de cada fator de risco, mas também a intensidade com que ele afeta homens e mulheres.
O estudo também encontrou indicadores associados a melhor desempenho cognitivo entre as mulheres.
Os pesquisadores observaram que mais anos de escolaridade estiveram relacionados a resultados cognitivos mais favoráveis. Níveis mais altos de colesterol total também apareceram associados a melhor cognição, embora os autores ressaltem que esse resultado ainda precisa ser investigado com mais profundidade.
Por se tratar de um estudo observacional, os dados não permitem concluir que esses fatores sejam responsáveis diretamente pelas diferenças encontradas. Ainda assim, os resultados reforçam a ideia de que o risco de demência não se manifesta da mesma forma para todos.
Os autores destacam que muitos dos fatores analisados podem ser controlados ou reduzidos ao longo da vida. Pressão alta, diabetes, sedentarismo, consumo excessivo de álcool, problemas de sono e depressão estão entre as condições que podem ser tratadas ou acompanhadas.
Isso significa que existem oportunidades concretas para diminuir o risco de declínio cognitivo por meio de mudanças de hábitos e cuidados médicos adequados.
Os pesquisadores afirmam que estudos futuros devem investigar por que o cérebro feminino parece ser mais sensível a determinados fatores de risco. Entre as hipóteses estão as alterações hormonais relacionadas à menopausa, embora os mecanismos ainda não estejam totalmente esclarecidos.
