
As redes sociais se transformaram em um dos principais espaços de discussão sobre saúde mental. Sintomas, diagnósticos, relatos pessoais e orientações circulam diariamente para milhões de pessoas. O desafio, segundo especialistas, é comunicar temas complexos sem reduzir questões clínicas a explicações simplificadas ou estimular interpretações equivocadas.
O assunto foi debatido pelo psiquiatra Felipe Santaella durante o Brain Congress 2026, realizado em Porto Alegre, nesta quarta (3/6). Consultor externo do Departamento de Saúde Mental do Ministério da Saúde, ele chamou atenção para a forma como o ambiente digital influencia a maneira como as pessoas entendem o sofrimento psíquico, os transtornos mentais e até a própria identidade.
Segundo Santaella, a internet deixou de ser apenas uma ferramenta utilizada em momentos específicos do dia e passou a funcionar como uma extensão da vida cotidiana. “A tecnologia não é mais só um objeto. Ela é um ambiente e também uma extensão da nossa realidade”, destacou.
Os números ajudam a dimensionar esse cenário. De acordo com dados apresentados pelo especialista, mais de 92% da população brasileira tem acesso à internet e cerca de 88% utiliza redes sociais. O Brasil também está entre os líderes mundiais em consumo de conteúdo digital, com média de nove horas diárias de conexão.
Mais do que um espaço de entretenimento, as plataformas se tornaram locais onde experiências, relações e formas de sofrimento são compartilhadas e interpretadas.
Um dos conceitos abordados por Santaella foi o chamado “efeito looping”, que descreve como as classificações e diagnósticos podem influenciar a forma como uma pessoa passa a entender a si mesma.
Segundo ele, ao receber um diagnóstico, o indivíduo não lida apenas com a avaliação médica, mas também com tudo o que encontra na cultura, nas redes sociais e nos conteúdos que consome sobre aquela condição.
“A informação que aquele paciente tem sobre o próprio diagnóstico vai mudar a partir do que ele imagina que é, daquilo que consome nas redes sociais e também do que está presente na cultura”, explicou.
Na prática, isso significa que o diagnóstico pode influenciar comportamentos, expectativas e até a maneira como familiares, escolas e instituições passam a enxergar aquela pessoa.
O psiquiatra citou situações observadas em crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista ou transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Em alguns casos, a condição acaba sendo utilizada como explicação única para dificuldades escolares ou desafios do desenvolvimento. Segundo ele, isso pode limitar a compreensão da criança e reduzir questões complexas apenas ao diagnóstico.
Ao mesmo tempo em que criam espaços de acolhimento e troca de experiências, as redes sociais também podem favorecer a circulação de informações incorretas.
Santaella apresentou pesquisas que analisaram conteúdos relacionados ao autismo publicados em plataformas digitais. Os resultados mostraram que mais da metade do material avaliado continha desinformação, conteúdo estigmatizante ou ambos.
Segundo ele, justamente os conteúdos com mais engajamento eram os que apresentavam maior quantidade de informações problemáticas. O especialista também chamou atenção para comunidades virtuais que discutem saúde mental a partir de categorias próprias, muitas vezes diferentes das classificações médicas utilizadas internacionalmente.
Esses espaços podem ajudar pessoas a compartilhar experiências semelhantes, mas também favorecem interpretações equivocadas sobre sintomas e diagnósticos.
“O compartilhamento de experiências pode favorecer o autodiagnóstico e a adoção de identidades psiquiátricas sem uma avaliação adequada”, ressaltou.
Para o psiquiatra, um dos principais desafios da comunicação em saúde mental é evitar que conteúdos curtos sejam interpretados como diagnósticos ou orientações definitivas.
Ele defende que publicações nas redes sociais devem servir como ponto de partida para reflexão e busca por ajuda, e não como substituição de consultas ou avaliações profissionais. “Um post não substitui uma consulta”, afirmou.
Em fevereiro deste ano, o Ministério da Saúde reuniu pesquisadores, gestores, profissionais da saúde e influenciadores digitais para discutir formas de melhorar a comunicação sobre saúde mental no ambiente online. O encontro resultou na elaboração de um guia de boas práticas que deve ser publicado nos próximos meses.
Ao encerrar a palestra, o psiquiatra resumiu o desafio que, segundo ele, acompanha a saúde mental na era digital.
“Talvez tudo o que a gente precise não seja falar mais sobre saúde mental, mas falar melhor”, finalizou.
