
Um exame de sangue em desenvolvimento pode ajudar a identificar cicatrizes no fígado antes que elas evoluam para estágios mais graves da doença. A proposta do teste é detectar sinais precoces de fibrose hepática, uma alteração que pode levar à cirrose e, em alguns casos, ao câncer de fígado
A pesquisa foi publicada na revista científica Science Translational Medicine em 4 de março. Os cientistas utilizaram ferramentas de aprendizado de máquina para analisar fragmentos de DNA presentes no sangue e identificar padrões associados às primeiras fases da cicatrização do fígado.
Segundo os cientistas, detectar a fibrose cedo é fundamental para evitar complicações mais graves. “A melhor forma de intervir no câncer de fígado não é detectar o câncer precocemente, mas identificar antes a doença hepática que pode levar a ele”, afirmou o pesquisador Victor Velculescu, do Centro Oncológico Kimmel da Universidade Johns Hopkins e um dos autores do estudo, à Live Science.
A fibrose ocorre quando o fígado sofre lesões repetidas e começa a formar cicatrizes. Nos estágios iniciais, a condição ainda pode ser revertida com medicamentos, mudanças no estilo de vida e tratamento das causas da inflamação hepática. Quando evolui para cirrose, no entanto, o dano costuma ser permanente.
O novo teste analisa o chamado DNA livre circulante, formado por fragmentos de material genético liberados na corrente sanguínea quando as células se renovam ou morrem.
Em vez de procurar mutações específicas, os pesquisadores usaram um modelo computacional para identificar padrões amplos em milhões de fragmentos de DNA espalhados por todo o genoma. Entre os sinais analisados estavam o tamanho desses fragmentos, a frequência de sequências repetidas e certas marcas químicas que influenciam a atividade dos genes.
“Estamos tentando identificar alterações que podem ocorrer em doenças e que afetam todo o genoma”, explica a primeira autora do estudo, Akshaya Annapragada.
Para desenvolver o método, os cientistas analisaram inicialmente amostras de sangue de 423 pessoas com e sem doença hepática. A partir dos dados, criaram um modelo capaz de reconhecer sinais associados à fibrose.
O teste foi então avaliado em um segundo grupo de 221 participantes. Entre eles havia pessoas com doença hepática em estágio inicial, casos avançados e indivíduos sem qualquer problema no fígado.
O exame identificou cerca de metade dos casos de doença hepática precoce e aproximadamente 78% dos casos em estágio avançado. Entre as pessoas saudáveis, o teste indicou corretamente ausência da doença em 83% dos casos.
Embora os resultados sejam considerados promissores, os pesquisadores ressaltam que o exame ainda precisa ser avaliado em estudos clínicos maiores antes de ser usado na prática médica.
Segundo a equipe, métodos como esse podem, no futuro, permitir a identificação de doenças hepáticas ainda silenciosas, quando intervenções médicas e mudanças de hábitos têm maior chance de evitar a progressão para danos permanentes no fígado.
