
Ao lado de Urano, Vênus é um dos únicos planetas do Sistema Solar que não rotacionam em torno do próprio eixo de oeste para leste, e, sim, no sentido contrário. Um novo estudo feito por um cientista brasileiro pode ter descoberto o motivo da “rebeldia” do planeta. Segundo o trabalho, o fenômeno chamado de rotação retrógrada ocorre devido à combinação entre motivos gravitacionais e atmosféricos.
Chamado de “planeta gêmeo” da Terra por ter dimensões parecidas, o fato de Vênus girar no sentido contrário ao do nosso planeta já era um evento conhecido, mas as explicações por trás disso ainda deixavam a desejar. O objetivo da pesquisa foi justamente trazer uma resposta definitiva.
A análise foi liderada pelo professor Sylvio Ferraz Mello, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). Os resultados foram publicados no The Astronomical Journal em março.
Conforme estabelecido no início dos anos 1960, é consenso que dois fatores influenciam a rotação de Vênus: as marés gravitacionais, provocadas pela atração solar e com tendência a desacelerar o giro; e a atmosfera densa, que tem aquecimento desigual da radiação do Sol, produzindo deformações térmicas capazes de acelerar a rotação no sentido contrário ao das marés.
“A atração do Sol sobre a parte sólida do planeta e sobre a atmosfera atua em sentidos opostos. Uma tende a frear a rotação, a outra a acelerá-la no sentido contrário – e a atmosfera acaba vencendo”, explica o professor Ferraz Mello, em entrevista à Agência Fapesp.
Medições já mostraram que o giro ao contrário do planeta dura cerca de 243 dias, mas, segundo o estudo, mesmo um dia em Vênus sendo tão “bagunçado” assim, o sistema é importante para a existência do planeta e não ocorre aleatoriamente devido a algum evento súbito do passado, como se pensava anteriormente.
Ao reconstruir a linha do tempo de Vênus, o pesquisador afirma que a atmosfera pouca desenvolvida do planeta em seu início fazia ele girar no mesmo sentido da maioria. No entanto, após os gases interioranos irem para a superfície, a região atmosférica ficou densa e provocou o giro “rebelde”.
Ainda segundo Ferraz Mello, podem estar havendo alterações lentas na rotação do planeta, porém são necessárias mais investigações para confirmá-las.
