
A crença de que a água elimina escorpiões não se sustenta na prática. Os animais conseguem sobreviver completamente submersos por longos períodos e, em vez de serem eliminados, muitas vezes acabam deslocados para dentro das casas — principalmente quando encontram ambientes desorganizados, com abrigo e alimento disponíveis.
De acordo com o professor de Biologia Rodrigo Basilio, do Colégio Objetivo de Brasília, a resistência dos escorpiões à água é maior do que muita gente imagina.“Eles conseguem sobreviver à submersão total. Em média, os aracnídeos suportam entre 24 a 48 horas debaixo d’água”, explica.
O especialista destaca que, em condições específicas, o tempo pode ser ainda maior. “Alguns registros científicos mostram indivíduos sobrevivendo mais em estado de dormência”, afirma.
A explicação está no funcionamento do organismo. Diferente dos insetos, os escorpiões possuem pulmões foliáceos, estruturas que realizam trocas gasosas. Durante a submersão, o metabolismo desacelera de forma intensa, reduzindo a necessidade de oxigênio.
Além disso, o corpo também contribui para a sobrevivência. “A cutícula do escorpião é hidrofóbica, o que pode aprisionar uma pequena bolha de ar junto aos estigmas, funcionando como um ‘plastrão’ temporário”, detalha Basilio.
Apesar da resistência, a água não é inofensiva em todas as situações. Correntes fortes podem causar danos, mas, no ambiente urbano, o efeito mais comum é outro: o deslocamento.
“Em cidades, a água atua como um facilitador logístico. Enchentes desalojam os escorpiões e forçam a subida para a superfície, aumentando a entrada em residências”, explica Basilio.
O especialista também chama atenção para o papel das tubulações. “Como conseguem prender a respiração e são ótimos escaladores, eles utilizam a rede de esgoto para se deslocar. A água passando pelo ralo não os mata”, afirma.
Se a água ajuda no deslocamento, a desorganização dentro de casa cria o ambiente ideal para a permanência. Segundo o professor Marcello Lasneaux, da Heavenly International School, em Brasília, o problema está na combinação de fatores.
“Desorganização é um prato cheio para acolhimento de escorpiões: mais abrigos, mais alimentos e menos controle”, afirma.
Locais escuros, úmidos e pouco movimentados são os preferidos desses animais. Ralos, frestas e rachaduras, além de espaços atrás de móveis e eletrodomésticos, funcionam como esconderijos frequentes.
O acúmulo de objetos também contribui diretamente para o risco. “Essa combinação entre lugar para morar e lugar para comer é implacável para que se alojem nesses espaços”, destaca Lasneaux.

Outro fator decisivo é a oferta de alimento. Escorpiões são predadores e se alimentam principalmente de baratas, grilos e aranhas. A presença constante de insetos dentro de casa é um chamariz para que os escorpiões entrem e permaneçam no ambiente.
Além disso, algumas espécies tornam o problema ainda mais grave. O Tityus serrulatus, considerado o mais perigoso no país, pode se reproduzir sem a presença de machos, o que acelera infestações dentro de residências.
Diante da resistência dos animais, medidas simples fazem diferença. Reduzir esconderijos e eliminar fontes de alimento são estratégias centrais para evitar a presença de escorpiões.
“É fundamental descartar objetos que não têm utilidade, controlar insetos e vedar possíveis pontos de entrada, como ralos e frestas”, orienta Lasneaux.
O uso de tampas protetoras em ralos, a limpeza frequente — inclusive em áreas pouco acessadas — e a organização dos ambientes ajudam a reduzir de forma significativa o risco.
A combinação entre adaptação biológica e facilidade de abrigo nas cidades explica por que os escorpiões continuam sendo um problema recorrente. Entender como eles sobrevivem e onde se escondem é o primeiro passo para manter distância desses animais.
