
Pelas estimativas da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), o Brasil tem em torno de 20 milhões de pessoas com a condição. Devido a esse índice, o país ocupa a sexta posição no ranking mundial de casos gerais. Uma forma de controlar a doença é por meio da alimentação, adoção de bons hábitos e do uso de medicamentos. Entretanto, alguns pacientes misturam outras fórmulas medicamentosas para obter maior efeito.
Para entender a respeito da combinação de medicamentos por pessoas com diabetes, a coluna Claudia Meireles entrevistou os endocrinologistas Ramon Marcelino e Marcela Cohen.
De acordo com o especialista, informar a população sobre a diabetes é fundamental: “Interações medicamentosas são complexas e exigem atenção constante do médico.”
Segundo o médico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), ao analisar as fórmulas usadas no próprio tratamento da diabetes, há combinações que merecem destaque. “A primeira é a de medicamentos redundantes, que agem pela mesma via. Juntos, não somam benefícios. Somam custo e risco”, sustenta.

Integrante do corpo clínico do Hospital DF Star, da Rede D’Or, Marcela faz uma ressalva: “O problema está principalmente em fazer essas combinações por conta própria, sem avaliação médica e sem ajuste das doses”. Os dois especialistas mencionam o mesmo exemplo de associação.
Ramon e Marcela abordam “a combinação de medicamentos da classe dos inibidores da enzima DPP-4, sitagliptina, linagliptina e vildagliptina, com medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida, dulaglutida ou liraglutida”.
A endocrinologista frisa que essa mistura não é recomendada por não oferecer benefício adicional relevante no controle da glicemia, ou seja, do açúcar no sangue.

“O exemplo mais comum é associar os inibidores da DPP-4, as chamadas gliptinas (sitagliptina, vildagliptina, saxagliptina, alogliptina, linagliptina), aos agonistas do receptor de GLP-1, as conhecidas ‘canetas emagrecedoras’, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro). As gliptinas atuam no mesmo sistema, com potência muito menor. Usadas junto às canetas, não acrescentam nada ao tratamento”, esclarece o especialista.
Os médicos citam “outro ponto de atenção”. O endocrinologista do Hospital das Clínicas destaca que essa combinação não é proibida, mas exige cautela: “No caso, é o uso de insulina com sulfonilureias, como a gliclazida e a glibenclamida”. Ele pontua que a associação aumenta bastante o risco de hipoglicemia. “A glibenclamida, em especial, tem risco ainda maior, sobretudo em idosos”, complementa.
Marcela Cohen adiciona que essas combinações podem ser utilizadas em situações específicas, mas frequentemente exigem redução das doses e monitorização mais cuidadosa para evitar hipoglicemia.
A especialista, que atende no Hospital DF Star, avisa sobre o cuidado com a ingestão de medicamentos que não são especificamente para diabetes. “Alguns deles podem interferir na glicemia ou na ação das fórmulas antidiabéticas, como os corticoides, por exemplo”.

Conforme Ramon Marcelino, combinar medicamentos sem critério, abre-se mão da exatidão do que está sendo prescrito. “Deixa-se de saber quanto de cada fórmula o organismo realmente recebe”, argumenta. Ele detalha que o tratamento tende a não funcionar como deveria. “Se a absorção cai, o efeito diminui junto. E o paciente, muitas vezes, nem percebe”, alerta.
À avaliação, Marcela reitera ser um problema quando o indivíduo associa medicamentos por conta própria, duplica princípios ativos ou mantém doses que deveriam ter sido reduzidas após a introdução de uma medicação.
“Uma hipoglicemia importante, por exemplo, tende a representar um risco cardiovascular e neurológico, além de aumentar o risco de acidentes e quedas. Já determinados medicamentos podem provocar alterações gastrointestinais, desidratação ou outros efeitos que precisam ser avaliados individualmente”, endossa a médica.
De acordo com a especialista, algumas combinações são recomendadas atualmente por oferecerem benefícios não apenas para a glicemia, mas também para o peso, coração e rins. “Muitas vezes uma medicação apenas não é o suficiente para controlar o diabetes e atingir as metas de glicemia e hemoglobina glicada, sendo necessária essa associação”, defende.
Ao concluir, Marcela Cohen ressalta que, quando a combinação é bem indicada e acompanhada pelo endocrinologista, pode ser extremamente útil para a pessoa com diabetes e fazer parte do tratamento adequado da condição.

