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Empresa diz poder ressuscitar espécies extintas com “ovo artificial”

A Colossal Biosciences, startup dos Estados Unidos que ganhou notoriedade ao afirmar que pretende “trazer de volta” animais extintos, como os lobos-terríveis, anunciou mais um feito de alto impacto midiático: o nascimento de 26 pintinhos em uma estrutura artificial que imita uma casca de ovo. Por meio de vídeo compartilhado nesta terça-feira (19), a empresa afirma que a tecnologia poderá, no futuro, ajudar na criação de aves geneticamente modificadas para se parecerem com espécies desaparecidas, como os moas gigantes da Nova Zelândia.

Veja:

 

 

Mas, embora o anúncio tenha sido apresentado pela companhia como um avanço rumo à chamada “desextinção”, especialistas ouvidos pela imprensa especializada afirmam que faltam dados fundamentais para avaliar a eficácia da técnica. Além disso, os profissionais alertam que a Colossal tem um histórico de fazer alegações controversas sobre espécies “ressuscitadas” sem respaldo científico consensual.

Basicamente, a tecnologia divulgada pela empresa consiste em uma estrutura impressa em 3D em formato de treliça, revestida por uma membrana transparente de silicone. O sistema funciona como uma espécie de incubadora externa, nos quais os ovos fertilizados são removidos de suas cascas naturais e transferidos para o dispositivo artificial, onde continuam seu desenvolvimento embrionário.

Segundo a Colossal, a membrana permite trocas gasosas semelhantes às de uma casca verdadeira, eliminando a necessidade de suplementação artificial intensa de oxigênio, um problema recorrente em experimentos anteriores de incubação “ex-ovo”. A empresa diz acreditar que o sistema poderá futuramente ser ampliado para acomodar ovos gigantescos como os dos moas, aves incapazes de voar que chegavam a mais de 3 metros de altura e foram extintas há cerca de 600 anos.

Falta de dados é principal alvo das críticas

Apesar do tom futurista do anúncio, pesquisadores afirmam que a empresa ainda apresentou pouquíssimas evidências concretas sobre o funcionamento real da tecnologia. O “ovo artificial” foi revelado apenas em comunicado de imprensa e vídeos promocionais. A Colossal não publicou artigo científico revisado por pares, não divulgou pré-publicação técnica nem apresentou números detalhados sobre eficiência, taxa de sobrevivência embrionária ou comparação rigorosa com métodos já existentes.

Segundo a revista Nature, a empresa também não pretende publicar um estudo formal neste momento porque planeja comercializar a tecnologia futuramente. Para os especialistas ouvidos pelo veículo, pode até ser que a descoberta seja realmente importante, no entanto, sem dados, é difícil avaliar qual será o seu impacto.

A ausência de informações quantitativas foi criticada também por pesquisadores consultados pela revista New Scientist, uma vez que não se compartilhou quaisquer informações a respeito da quantidade de pintinhos que não eclodiram da estrutura ante aqueles que chegaram a nascer.

Vale destacar que a própria empresa admite que ainda não mediu a taxa de sucesso do sistema. Isso significa que o dado mais básico para avaliar a tecnologia — qual porcentagem dos embriões realmente sobrevive — continua desconhecido publicamente.

Nem “ovo artificial”, nem novidade absoluta

Outro ponto levantado pelos especialistas é que a Colossal provavelmente exagera ao descrever a estrutura como um “ovo artificial”. Na prática, os embriões continuam dependendo de elementos biológicos naturais já presentes no ovo original, incluindo gema, clara e membranas embrionárias fundamentais para o desenvolvimento. O sistema criado pela empresa substitui principalmente a casca externa.

Além disso, incubações semelhantes já haviam sido realizadas anteriormente por outros grupos científicos usando recipientes improvisados, como filmes plásticos, copos transparentes e estruturas laboratoriais adaptadas. O primeiro relato de sucesso com aves remonta aos anos 1990.

Os pesquisadores reconhecem, porém, que a Colossal pode ter melhorado um aspecto importante da técnica: a troca de oxigênio. A Nature destaca que modelos anteriores geralmente exigiam níveis elevados de oxigênio suplementar próximos à eclosão, algo potencialmente danoso aos tecidos e ao DNA dos embriões.

Nesse ponto específico, a membrana desenvolvida pela Colossal pode representar um avanço real. Mesmo assim, os cientistas ressaltam que ainda não há dados suficientes para confirmar se a tecnologia funciona melhor que as alternativas existentes.

Exagero nas alegações de “desextinção”

O ceticismo em torno do novo anúncio não surge isoladamente. Ele está diretamente ligado ao histórico recente da própria Colossal.

Nos últimos anos, a empresa ganhou enorme atenção internacional ao divulgar projetos envolvendo mamutes-lanosos, tigres-da-tasmânia, dodôs e lobos-terríveis. Em abril, a companhia afirmou ter “trazido de volta” o lobo-terrível — predador extinto há milhares de anos e popularizado pela série Game of Thrones. Mas a alegação foi amplamente rejeitada pela comunidade científica.

Como a GALILEU já havia publicado em junho de 2025, os animais produzidos pela Colossal eram, na realidade, lobos-cinzentos geneticamente modificados com algumas características inspiradas nos lobos-terríveis. Inclusive, a cientista-chefe responsável pelo desenvolvimento do projeto dentro da empresa reconheceu que os exemplares não eram literalmente da espécie extinta.

Agora, diversos cientistas dizem enxergar o mesmo padrão no anúncio do “ovo artificial”. Pode ser uma tecnologia potencialmente útil, mas apresentada com promessas muito maiores do que aquilo que foi efetivamente demonstrado.

Trazer espécies de volta é improvável

Mesmo que o sistema funcione perfeitamente, especialistas afirmam que isso está muito longe de significar a volta dos moas. O principal problema continua sendo genético. O DNA das espécies extintas se degrada ao longo do tempo, fragmentando-se progressivamente. Isso impede a reconstrução completa de um genoma funcional idêntico ao original.

Por isso, pesquisadores afirmam que a “desextinção”, no sentido literal, provavelmente é impossível. A empresa pode até conseguir usar essa tecnologia para criar um pássaro geneticamente modificado, mas seria apenas um pássaro geneticamente modificado. Não seria um moa.

Na prática, o que projetos desse tipo podem produzir são híbridos modernos editados geneticamente para apresentar algumas características físicas de espécies desaparecidas. Contudo, mesmo isso ainda parece distante.

Os ovos dos moas chegavam a cerca de 24 centímetros de comprimento e continham volumes gigantescos de gema e clara. Cientistas ouvidos pela New Scientist afirmam que reproduzir artificialmente gemas desse porte seria um enorme desafio biológico, já que cada gema é uma única célula.

Embora muitos pesquisadores critiquem as ambições de “desextinção” da Colossal, outros reconhecem que a tecnologia pode ter aplicações práticas relevantes em conservação animal. O sistema poderia, por exemplo, ajudar programas de reprodução de aves ameaçadas de extinção, especialmente espécies com baixa taxa de eclosão. Tudo isso depende, porém, da real eficácia da tecnologia.

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