
A possibilidade de acordo para uma delação premiada entre a defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e as autoridades investigadoras do caso Master segue indefinida em meio à crise institucional no STF (Supremo Tribunal Federal) e às incertezas quanto ao andamento do processo na Corte.
Com a falta de certeza sobre a relatoria do caso – o presidente do STF Edson Fachin determinou que o inquérito do Master fosse remetido a ele e ficasse "paralisado" até segunda ordem –, novos andamentos, incluindo a negociação para uma eventual delação, ficaram em "banho-maria".
O relator do processo, ministro André Mendonça, segue até o momento à frente do caso. No entanto, sem poder determinar diligências ou, ao menos por enquanto, homologar alguma colaboração de Vorcaro por conta da decisão de Fachin.
Além de assumir o controle provisório do caso Master, Fachin também "pausou" a condução dos processos sobre o escândalo de corrupção no INSS e acerca da suposta relação entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, ambos também estavam sobre o comando de André Mendonça.
No caso envolvendo Moraes, a derrubada do sigilo de relatórios da PF (Polícia Federal) – determinada por Mendonça – foi o estopim da crise entre membros do STF. Mendonça remeteu ao plenário da Corte um pedido de abertura de investigação contra o colega, o que ainda não foi decidido pelo colegiado do Tribunal.
A CNN apurou que, para os advogados de Daniel Vorcaro, a divulgação das mensagens com a suposta relação próxima entre o banqueiro e Moraes pode atrapalhar o fechamento de um acordo de delação em meio à exposição de menções a integrantes do STF no celular de Vorcaro.
No dia 30 de setembro, a PF prevê realizar um novo depoimento de Vorcaro e do pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, que também está preso. Será a primeira vez que o pai do empresário será ouvido. Segundo a PF, os depoimentos fazem parte da conclusão da 6ª fase da investigação.
PF e PGR
Em outra frente da crise, a possibilidade de colaboração premiada de Vorcaro também está incerta quanto à relação da defesa com a PF e a PGR (Procuradoria Geral da República), órgãos que têm previsão legal para negociar e fechar alguma delação com o banqueiro.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, esteve envolvido em dois movimentos recentes de Mendonça. Primeiro, conforme apurou a CNN, Andrei foi citado por Vorcaro em um depoimento ao gabinete do ministro que ocorreu sem a participação de policiais federais.
Na ocasião, Vorcaro afirmou que as negociações para fechar uma delação premiada não evoluíram porque ele poderia relatar como seria sua relação com o diretor-geral da PF – no caso, com Andrei Rodrigues. Procurada, a defesa de Vorcaro não quis se manifestar sobre o depoimento. Andrei também ainda não se manifestou sobre esse assunto.
Em um segundo momento, o ministro Mendonça determinou o afastamento de Andrei do comando da PF, alegando que o chefe da Polícia teria monitorado ilegalmente o magistrado. A decisão foi revertida pelo presidente do STF, Edson Fachin, mas ampliou a tensão entre Mendonça e a cúpula da PF, o que pode impactar o andamento das negociações com a defesa de Vorcaro.
Já em relação à PGR, a possibilidade de um acordo também é abstrata neste momento, visto que o procurador-geral da República Paulo Gonet também foi citado em mensagens e apareceu em uma foto ao lado de Daniel Vorcaro.
Desde a derrubada do sigilo do Caso Master, vieram a público citações que seriam ao nome de Gonet, além de uma foto, divulgada no último sábado (19), que mostra o PGR junto com Vorcaro fumando charutos durante evento em Londres, em 2024. Segundo a assessoria da PGR, o evento contou com a participação de diversas autoridades e Gonet já havia admitido publicamente ter comparecido.
Pedido para revogar prisão
Em meio a instabilidade no andamento dos inquéritos envolvendo Vorcaro no Supremo, a defesa do ex-dono do Master solicitou ao STF na última sexta-feira (18) a revogação da prisão preventiva. O pedido foi endereçado ao presidente Edson Fachin.
Os advogados alegaram que o requerimento é dirigido à Presidência do STF “porque a condução dos feitos relacionados à operação Compliance Zero encontra-se, neste momento, em situação de indefinição”.
Segundo esse pedido da defesa, o prazo de 90 dias para nova revisão da prisão já acabou. A prisão preventiva inicial foi cumprida em 4 de março de 2026 e o segundo ciclo de mais 90 dias terminou em 31 de agosto. Os advogados sustentam, portanto, que o STF deve fazer uma nova análise da detenção.
A defesa também afirmou a Fachin que houve um “esvaziamento dos motivos que levaram à prisão”, como intimidações, valores encontrados na conta do pai de Vorcaro e seu poder econômico e influência política, e que esses fatores teriam sido "neutralizados ou perdidos na atualidade".
Como mostrou a CNN, a crise no STF é vista pela defesa de Vorcaro como uma possibilidade maior para que os advogados consigam que o banqueiro deixe a cadeia. A incerteza no andamento do processo na Suprema Corte é citada diretamente também em outro trecho do pedido de liberdade:
“Na sessão plenária de 15 de setembro de 2026, a própria definição da relatoria e da competência para a condução dos procedimentos correlatos foi objeto de questão de ordem, cujo julgamento foi suspenso por pedido de vista. Não restou definida, portanto, autoridade com competência para exercer, com segurança, a revisão a que se refere o parágrafo único do artigo 316 do Código de Processo Penal senão o Presidente, ao qual os autos foram remetidos”, diz a solicitação da defesa
