
Popularmente chamado “Mounjaro de pobre” ou “Ozempic natural”, o psyllium voltou a ganhar espaço como uma alternativa barata para quem busca emagrecer.
A comparação, no entanto, é exagerada e pode levar a interpretações erradas: o suplemento não é um medicamento contra a obesidade, não age da mesma forma que as canetas emagrecedoras e não provoca perda de peso sozinho.
O psyllium, também chamado de psílio, é uma fibra solúvel extraída da planta Plantago ovata, nativa da Índia e do Irã. Cerca de 70% a 85% do pó corresponde a fibras solúveis.
Na prática, o suplemento funciona de maneira mecânica no sistema digestivo. Ao entrar em contato com água, ele absorve líquido, aumenta de volume e forma uma espécie de gel. Por tal motivo, pode contribuir para a sensação de estômago cheio, retardar a digestão e ajudar algumas pessoas a comerem menos ao longo do dia.
A diferença central está no mecanismo de ação. Medicamentos como Mounjaro e Ozempic são remédios usados sob indicação médica e atuam em vias específicas do organismo relacionadas ao controle da glicose, da fome e do peso. O psyllium é uma fibra alimentar. Ele pode ajudar na saciedade, mas não trata obesidade por conta própria.
“Devido à sua capacidade de absorver água e se expandir no estômago, o psyllium pode ajudar na sensação de saciedade. Isso pode auxiliar indiretamente na perda de peso ao reduzir a ingestão calórica total”, explicou o endocrinologia Rodrigo Neves.
A palavra-chave é “indiretamente”. O psyllium pode ser uma ferramenta dentro de uma rotina com alimentação equilibrada, hidratação e acompanhamento profissional. Ele não substitui tratamento médico, mudança alimentar, atividade física ou medicamentos prescritos.

Além do possível efeito na saciedade, o psyllium também é conhecido pelo impacto no funcionamento intestinal. Por formar um gel, ele ajuda a reter água no intestino, amolecer as fezes e facilitar a evacuação em pessoas com constipação. A nutricionista Talyta Machado, que atende em Brasília, explicou que a fibra também pode ter reflexos no controle da glicose.
“De forma resumida, o intestino se torna mais lento em pessoas que ingerem o psyllium. Isso tem um impacto no controle glicêmico, já que o açúcar é absorvido mais lentamente, além de diminuir também acúmulos de gordura e a sensação de fome, pois a barriga está cheia”, afirmou.
O suplemento também pode contribuir para a redução do colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, segundo Neves. “Os benefícios incluem melhora na regularidade intestinal, auxílio na manutenção dos níveis de açúcar no sangue para pessoas com a diabetes e possível redução do colesterol LDL (ruim)”, apontou o médico.
O psyllium pode ser usado em pó, misturado com água, sucos ou incorporado em receitas, como pães, panquecas e vitaminas. Segundo os especialistas, a quantidade diária recomendada varia entre 5 g e 10 g por refeição, conforme orientação profissional, diluída em 300 ml de água.
Para quem busca maior saciedade, os médicos apontam que o suplemento costuma ser consumido cerca de 30 minutos antes das refeições, como o almoço.
A hidratação é parte essencial do uso. Sem água suficiente, a fibra pode ter efeito contrário ao esperado e piorar a prisão de ventre. O consumo em excesso também pode causar gases, distensão abdominal, cólicas e outros desconfortos gastrointestinais.
Apesar de ser vendido como suplemento, o psyllium não é indicado para todas as pessoas. Ele deve ser evitado por indivíduos com obstruções intestinais, dificuldade de deglutição ou alergia ao produto.
Pessoas com doenças intestinais ou que usam medicamentos de forma contínua devem procurar orientação profissional antes de incluir a fibra na rotina, por causa do risco de interações ou efeitos indesejados.
O ponto principal é não transformar a fibra em promessa milagrosa. O psyllium pode ajudar na saciedade, no intestino, no controle da glicose e no colesterol, mas os efeitos são limitados e dependem do uso adequado. Chamar o suplemento de “Mounjaro de pobre” simplifica demais o assunto e coloca no mesmo grupo produtos com funções muito diferentes no corpo.
