
Essenciais para o equilíbrio do planeta, os manguezais brasileiros armazenam volumes expressivos de carbono azul e protegem as áreas costeiras contra erosão e ressacas extremas.
O ecossistema, que ocupa cerca de 1,4 milhão de hectares no território nacional — com maior concentração no litoral amazônico —, guarda estoques de carbono no solo que podem superar em até duas vezes a capacidade por hectare de florestas tropicais terrestres, segundo estudos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Jonata de Arruda Francisco, doutor em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Pernambuco e pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal do Pará, explica que a retenção da substância ocorre de forma diferenciada.
“O carbono azul é o carbono capturado e armazenado pelos ecossistemas costeiros. No caso dos manguezais, uma característica importante é que grande parte desse carbono fica armazenada no solo, e não apenas na vegetação”, pontua.
A dinâmica das marés e a composição dos sedimentos são determinantes nesse processo. Nos manguezais, as lamas assumem um papel-chave: elas apresentam baixa disponibilidade de oxigênio e, nessas condições, os microrganismos continuam decompondo a matéria orgânica, mas de maneira lenta.
“Esse conjunto de condições permite que parte do carbono fique armazenada por centenas ou até milhares de anos”, afirma o pesquisador.
A arquitetura das raízes desempenha uma função crucial na proteção do litoral contra a força do mar. O sistema radicular denso amortece a energia mecânica das ondas, prevenindo o desgaste contínuo da linha de costa e retendo sedimentos trazidos do mar e dos rios.
O pesquisador Luiz Drude, do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), destaca a eficiência do ecossistema frente a eventos extremos.
“Os mangues atuam como uma barreira física, além de prenderem os sedimentos em suspensão transportados pela maré, criando mais solos. O reconhecimento da capacidade dos manguezais de protegerem os litorais passou a ter importância global após o tsunami do Oceano Índico em 2004, que demonstrou a capacidade desses ambientes de diminuir a força das ondas e minimizar perdas de vidas e estruturas”, afirma Drude.
Além da proteção contra erosão, o ambiente atua como um filtro biogeoquímico. De acordo com Drude, a ausência de oxigênio nos solos e a atividade microbiana imobilizam contaminantes pesados e nutrientes acumulados.
Ele explica que a decomposição bacteriana e a granulometria fina resultam em um rápido consumo de oxigênio presente nos solos, tornando-os anóxicos. Esse mecanismo os transforma em verdadeiros filtros naturais que dificultam a migração de poluentes para os ambientes costeiros adjacentes.
Embora sejam protegidos pela legislação brasileira como Áreas de Preservação Permanente (APPs), os manguezais sofrem contínua degradação causada pela especulação imobiliária, derramamento de esgoto e poluição urbana. A ocupação desordenada em regiões estuarinas impede a migração natural da vegetação em resposta à elevação do nível do mar, aprisionando o ecossistema entre as construções humanas e a maré subjacente.
A restauração de áreas degradadas demanda abordagens científicas rigorosas que vão além do simples plantio de mudas. Francisco ressalta que “recuperar um manguezal não é simplesmente plantar mudas”.
Antes disso, é necessário identificar o que provocou sua degradação e compreender como aquele ambiente funciona. “Se as condições hidrológicas estiverem comprometidas, o plantio não produz os resultados esperados”, explica.
O pesquisador destaca ainda o uso de novas metodologias para monitoramento. “Ferramentas como o DNA ambiental podem complementar os levantamentos tradicionais, ajudando a acompanhar as mudanças nas comunidades biológicas ao longo do processo de recuperação, com o apoio fundamental de comunidades locais como pescadores e catadores de caranguejo”, afirma.
