
Dormir oito horas e ainda acordar cansado pode parecer contraditório, mas especialistas afirmam que isso é mais comum do que muita gente imagina, especialmente depois de uma noite marcada por pesadelos. Nessas situações, o corpo até descansa fisicamente, mas o cérebro continua funcionando em estado de alerta, como se estivesse enfrentando uma ameaça real.
O resultado aparece logo pela manhã: sensação de exaustão, mente pesada, irritação, dificuldade de concentração e baixa disposição ao longo do dia.
O médico do sono Ícaro Alves, que atende em Brasília, explica que os pesadelos prejudicam principalmente a fase REM do sono, considerada uma das mais importantes para recuperação do cérebro.
“Quando a pessoa tem pesadelos frequentes, intensos ou desperta várias vezes durante a noite, a arquitetura do sono fica prejudicada, especialmente o sono REM, que é uma das fases mais importantes para consolidação da memória, equilíbrio emocional e recuperação cerebral”, afirma.
Segundo o especialista, mesmo sem perceber, o cérebro sofre microdespertares ao longo da madrugada. Isso impede que o organismo entre em um estado profundo de recuperação. Na prática, é como tentar descansar enquanto o corpo continua sob tensão.
Além do cansaço, noites ruins podem aumentar irritabilidade, compulsão alimentar, lapsos de memória e dificuldade para tomar decisões.
A neurologista Carolina Alvarez, que atende no Rio de Janeiro, afirma que o cérebro interpreta o pesadelo de forma muito parecida com situações reais de medo e estresse.
“Um pesadelo pode provocar uma reação intensa do cérebro e do organismo, quase como se a pessoa estivesse vivendo uma situação real de estresse ou ameaça”, explica.
Durante o episódio, é comum acordar com coração acelerado, suor, ansiedade e dificuldade para voltar a dormir. Isso acontece porque o cérebro ativa mecanismos ligados à sobrevivência, liberando hormônios do estresse que dificultam o relaxamento.
Como os pesadelos geralmente acontecem durante a fase REM, interrupções frequentes acabam afetando funções importantes do cérebro, como organização das memórias, aprendizado e regulação do humor.
Para a psiquiatra Neusa Aita Agne, que atende em Porto Alegre, o excesso de estímulos e preocupações do dia não desaparece quando a pessoa dorme. “Quando o cérebro entra em ‘modo ameaça’, ele começa a monitorar excessivamente o corpo”, afirma.
Segundo a especialista, ansiedade, estresse crônico, burnout e excesso de informação podem deixar o cérebro hiperativo até durante a madrugada. Isso aumenta a chance de sonhos intensos, despertares frequentes e sensação constante de que o sono não foi suficiente.
Os especialistas alertam que pesadelos ocasionais são normais, mas alguns sinais merecem atenção: acordar cansado todos os dias, ter muito sono durante o dia, sentir medo de dormir, apresentar movimentos intensos durante a noite ou perceber piora importante na memória e concentração devem ser investigados.
Quando os episódios passam a ser frequentes ou começam a afetar a qualidade de vida, a recomendação é procurar avaliação médica especializada.
