
Incêndios florestais cada vez mais intensos e frequentes, impulsionados pelas mudanças climáticas globais, exigem uma mudança profunda nas estratégias tradicionais de reflorestamento.
Estudos recentes, incluindo publicações na revista Science, apontam que replantar as mesmas espécies deixou de funcionar, pois a abertura do dossel e o aumento das temperaturas expõem as mudas jovens a condições microclimáticas extremas e letais.
No Brasil, os impactos variam conforme o bioma. Enquanto o Cerrado possui adaptações naturais e capacidade intrínseca de rebrota após o fogo, biomas como a Amazônia e a Mata Atlântica sofrem com alta mortalidade de árvores e rápida degradação quando expostos a chamas recorrentes.
Para garantir a sobrevivência das novas florestas, os projetos de restauração precisam projetar as condições climáticas de 30 a 50 anos à frente. Segundo o professor Marcos Buckeridge, da Universidade de São Paulo (USP) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, a escolha das árvores exige compreender a resposta fisiológica das plantas ao aquecimento global.
“Precisamos considerar não apenas o clima atual, mas também o que provavelmente existirá quando essas árvores atingirem a maturidade”, aponta o pesquisador.
A abertura do dossel provocada pelo fogo eleva a temperatura do solo em mais de 6 °C em relação ao intervalo fisiológico habitual de muitas espécies sombreadas. O pesquisador Leandro Maracahipes, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, explica que o estresse térmico e a baixa umidade comprometem o desenvolvimento inicial.
“No estágio de plântula, as espécies tendem a ser mais vulneráveis à mortalidade, sobretudo quando expostas a condições microclimáticas mais estressantes”, destaca.
Uma das alternativas científicas em estudo é a migração assistida, que consiste no uso de mudas ou sementes de populações já adaptadas a regimes de maior estresse hídrico e térmico. No entanto, o processo enfrenta barreiras logísticas e financeiras.
Embora a regeneração natural ocorra em áreas com fontes de dispersão de sementes próximas e baixa severidade do fogo, solos severamente degradados exigem intervenção humana ativa.
Maracahipes ressalta que a migração assistida é uma intervenção que demanda recursos, planejamento e pessoal para o plantio de mudas já adaptadas a condições de maior estresse hídrico e climático. Além disso, a modernização de viveiros exige investimentos massivos em pesquisa básica para mapear características genéticas e evitar a proliferação de espécies invasoras que desequilibrem a fauna local.
A recuperação de ecossistemas complexos não depende exclusivamente do volume de mudas plantadas, mas do restabelecimento das interações biológicas entre solos, animais e microrganismos. Para Buckeridge, a autonomia de povos indígenas e comunidades tradicionais é indispensável nesse processo.
“As comunidades que vivem nesses ambientes possuem conhecimentos acumulados sobre as plantas, os animais, os solos, os rios e os ciclos naturais, o que pode ser extremamente importante para a recuperação das florestas”, afirma.
Os especialistas convergem para o entendimento de que a conservação e a prevenção ao desmatamento continuam sendo os caminhos mais eficazes, uma vez que o custo financeiro e o tempo necessário — que pode ultrapassar meio século — tornam a recuperação de áreas queimadas um desafio crítico para o futuro ambiental do país.
