
Uma coceira persistente, sem causa aparente e que não melhora com tratamentos convencionais pode ser mais do que um simples desconforto. Embora alergias, ressecamento da pele e problemas dermatológicos estejam entre as causas mais comuns, especialistas alertam que, em alguns casos, o sintoma pode estar relacionado ao funcionamento do fígado.
A coceira associada às doenças hepáticas costuma surgir quando há alterações no fluxo da bile, substância produzida pelo fígado para auxiliar na digestão. Quando esse processo é comprometido, componentes que deveriam ser eliminados pelo organismo podem se acumular e desencadear o sintoma.
Além do desconforto, a coceira pode afetar o sono, a qualidade de vida e até anteceder outros sinais clássicos de doenças do fígado, tornando a investigação médica fundamental.
Segundo a hepatologista Vivianne Mello, do Hospital da Bahia e da clínica AMO, em Salvador, a coceira relacionada ao fígado geralmente está ligada a alterações nas vias biliares.
“Quando a coceira dura semanas ou meses, não melhora com tratamentos comuns para alergia ou vem acompanhada de sinais como olhos amarelados, urina escura, fezes claras ou cansaço, vale investigar o fígado”, explica.
A especialista destaca que doenças que dificultam a eliminação da bile podem favorecer o acúmulo de substâncias capazes de estimular terminações nervosas da pele, provocando coceira intensa.
Já a nutróloga Beatriz Pereira Vilela, da plataforma INKI, ressalta que o sintoma nem sempre está associado a doenças hepáticas, mas merece atenção quando persiste por longos períodos.
Entre as condições mais associadas ao sintoma estão as chamadas doenças colestáticas, caracterizadas pela redução ou bloqueio do fluxo da bile. Nesse grupo estão enfermidades como colangite biliar primária, colangite esclerosante primária, obstruções das vias biliares por cálculos ou tumores e a colestase da gestação. Casos de hepatite aguda viral também podem apresentar coceira como manifestação clínica.
De acordo com os especialistas, a coceira de origem hepática costuma apresentar algumas características específicas. Ela frequentemente ocorre sem lesões aparentes na pele, tende a piorar durante a noite e pode ser mais intensa nas palmas das mãos e plantas dos pés. Diferentemente das alergias, o sintoma geralmente não responde de forma satisfatória aos medicamentos antialérgicos tradicionais.
A investigação da coceira persistente envolve avaliação clínica, exame físico e exames laboratoriais capazes de analisar o funcionamento do fígado.
“Além dos sintomas clínicos, exames como fosfatase alcalina, gama-GT, bilirrubinas e transaminases ajudam na investigação”, destaca Vivianne.
Dependendo da suspeita clínica, também podem ser solicitados exames de imagem, como ultrassonografia abdominal e colangiorressonância, além de sorologias e autoanticorpos.
Para Beatriz, o principal sinal de alerta é a persistência do sintoma. “Toda coceira persistente, sem causa aparente e que dure várias semanas merece investigação”, orienta.
A recomendação é buscar avaliação médica especialmente quando a coceira surge acompanhada de olhos ou pele amarelados, urina escura, fezes claras, perda de peso inexplicada ou cansaço excessivo. Quanto mais cedo a causa for identificada, maiores são as chances de tratamento adequado e prevenção de complicações.
