
Inglaterra e Argentina se enfrentam pelas semifinais da Copa do Mundo de 2026 nesta quarta-feira (15), às 16h (horário de Brasília), em uma disputa que atravessa os gramados e figura como uma rivalidade histórica. A tensão entre os países contempla uma guerra, um par de ilhas, alguns cartões vermelhos e dois dos lances mais importantes da história do futebol.
Assim como em outros embates, o torcedor não olha somente para o histórico das seleções, mas para a história dos países. Neste caso, a rivalidade entre Inglaterra e Argentina remonta ao século XIX e traz à tona uma disputa territorial que, até hoje, causa tensão entre as nações.
Nesse clima, e com a primeira vez de Messi contra os ingleses, o jogo deve ser um dos mais marcantes do torneio.
Quem vencer hoje está automaticamente classificado para a final da Copa do Mundo de 2026, que ocorre no domingo (19) às 16h. A seleção que perder o embate, disputa o terceiro lugar um dia antes, no sábado (18).
As chances não estão a favor de ninguém e o confronto deve ser acirrado, ao menos segundo as estatísticas.
Segundo a SportRadar, fornecedora oficial de dados esportivos da FIFA, a Inglaterra tem 36% de vencer o jogo das semifinais, ao passo que a chance de a Argentina levar a melhor é de 32%. A probabilidade de empate e prorrogação é de iguais 32%.
O jogo da Inglaterra contra a Argentina ainda abarca uma disputa pela artilharia do torneio. Lionel Messi está empatado com o francês Kylian Mbappé como artilheiro da Copa, com oito gols.
Erling Haaland, da Noruega — já eliminada — vem em seguida com sete. No entanto, em seguida aparecem os ingleses Harry Kane e Jude Bellingham, que estufaram as redes seis vezes cada até agora.
Abaixo, entenda todos os detalhes sobre a rivalidade entre a nação latina e o país que integra o Reino Unido — tanto dentro quanto fora dos campos.
A rivalidade entre Argentina e Inglaterra no futebol
A torcida e a imprensa chamam um duelo entre Barcelona e Real Madrid de “El Clásico”. Em solo paulisano, uma disputa de Corinthians e Palmeiras é chamada de “Dérbi”. Para a disputa entre ingleses e argentinos no futebol não há ainda um apelido consagrado, mas isso está longe de diminuir o tamanho da tensão entre os dois países e a longa (e polêmica) história dos confrontos.
No total, a Inglaterra já venceu seis embates no tempo regular, contra apenas duas vitórias da Argentina. Além disso, foram cinco empates — sendo um desses convertido em classificação argentina nos pênaltis.
Apesar dessa disparidade, a Argentina venceu quando mais importava, e uma dessas vitórias inclui uma das maiores polêmicas do futebol até os dias de hoje.
Esse jogo, que seja o que talvez melhor represente a rivalidade entre os dois países, ocorreu em junho de 1986, pelas quartas de final da Copa do Mundo que ocorria no México. A Argentina ganhou por 2 a 1.
O palco foi o Estádio Azteca, na Cidade do México, com um público total que ultrapassou 100 mil pessoas.
A partida foi disputada cerca de três anos depois do fim da Guerra das Malvinas, com os dois países ainda carregando as marcas do conflito.
À época, Diego Maradona vestia a camisa argentina, sendo o principal nome da seleção. O primeiro tempo terminou 0 a 0, com Maradona inclusive protagonizando uma briga com o bandeirinha durante uma cobrança de escanteio.
Depois disso, o segundo tempo concentrou muitos eventos em uma janela de apenas quatro minutos, e vários deles ficaram marcados para sempre.
Aos 51 minutos, Maradona marcou o primeiro gol usando a mão esquerda, com o árbitro tunisiano Ali Bennaceur sem enxergar o lance. Esse erro de arbitragem é um dos mais notórios da história do futebol, e ficou conhecido como “La Mano de Dios”, ou a “Mão de Deus” em tradução livre.
Aos 55 minutos veio o segundo gol, também de Maradona, que correu cerca de 60 metros em 11 segundos — lance este que foi rotulado como gol do século em 2002 pela FIFA, após votação popular. Foram mais de 18 mil votos para o gol de Maradona, que superou os 10 mil votos do segundo lugar, que foi justamente um gol de Michael Owen, da Inglaterra, em um jogo contra a Argentina que viria a ocorrer 12 anos depois de “La Mano de Dios”.
O inglês Gary Lineker descontou aos 81 minutos com um gol de cabeça, mas o jogo terminou dando vitória ao país latino.
A camisa que Maradona trocou com Steve Hodge ao fim da partida foi vendida em um leilão da Sotheby’s em meados de 2022 pela cifra de US$ 9,2 milhões, que representa cerca de R$ 46 milhões no câmbio atual.
Em sua autobiografia (“Yo Soy El Diego”, publicada em 2000), Maradona escreveu que o gol com a mão foi “como roubar a carteira dos ingleses” e afirmou que a vitória sobre a Inglaterra representou, para muitos argentinos, uma espécie de revanche simbólica pela Guerra das Malvinas.
“El robo del siglo”
Antes desse confronto histórico, outro jogo também evidenciou tensão entre os dois países.
Nas quartas de final do Mundial de 1966, na Inglaterra, o capitão argentino Antonio Rattín foi retirado do campo pela polícia depois de se recusar a sair. Rattín foi expulso por discussão com o árbitro.
O árbitro alemão Rudolf Kreitlein afirmou, segundo relatos de argentinos, que havia expulsado Rattín porque não gostou do modo como o jogador o encarava frequentemente.
O árbitro o expulsou verbalmente, como era de costume na época, dado que o sistema de cartões não existia na década de 1960, e as penalidades eram aplicadas verbalmente pela arbitragem dos jogos.
À época, jornais britânicos citaram como razão oficial “violência de linguagem”, o que também gerou polêmica, especialmente considerando que Kreitlein não falava espanhol e Rattín não falava alemão.
Depois da partida, o técnico inglês Alf Ramsey recusou-se a deixar seus jogadores trocarem as camisas com os argentinos e descreveu os sul-americanos como “animais” na imprensa.
O jogo terminou em 1 a 0 para a Inglaterra, com um único gol, de Geoff Hurst, aos 78 minutos.
A partida é chamada pelos argentinos de “el robo del siglo”, ou “o roubo do século” em tradução livre, por conta da expulsão de Rattín e pela condução da arbitragem como um todo.
O notório vermelho a David Beckham
Não foi a única vez em que uma expulsão causou comoção e ganhou manchetes de jornais no confronto entre Inglaterra e Argentina.
Em uma partida pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 1998, na França, o argentino Gabriel Batistuta abriu o placar de pênalti logo aos sete minutos.
No entanto, Michael Owen ganhou um pênalti menos de cinco minutos depois, convertido por Alan Shearer.
Depois disso, Owen partiu do meio-campo para marcar um dos gols mais celebrados da história da seleção inglesa, que foi o gol que recebeu 10 mil votos na votação de “Gol do Século da FIFA”, de 2002.
Zanetti empatou para Argentina, deixando o placar em 2 a 2 com um gol de falta ao fim do primeiro tempo.
Com este clima tenso, logo nos minutos iniciais do segundo tempo, David Beckham foi derrubado por Diego Simeone.
Com o jogo parado, o inglês chutou a perna do argentino que havia feito a falta enquanto estava no chão. O lance resultou em cartão vermelho.
Jogando com dez atletas, a Inglaterra perdeu o jogo na disputa por pênaltis por 4 a 3.
No dia seguinte, o Daily Mirror publicou: “10 Leões Heroicos, Um Garoto Idiota”. A manchete do Daily Mail dizia “O Momento de Loucura Que Custou As Esperanças da Copa do Mundo”.
Anos depois, Simeone admitiu ter simulado a queda para aumentar as chances de expulsão de Beckham, embora o lance não seja muito questionado pelos ingleses, dado que o atacante decidiu deliberadamente atingir o adversário após o som do apito e sem nenhuma necessidade.
21 anos sem disputas entre Inglaterra e Argentina
A última vez que Argentina e Inglaterra se enfrentaram foi em novembro de 2005, em um amistoso disputado em Genebra, na Suíça.
A partida terminou com vitória inglesa por 3 a 2.
Na partida, foram dois gols de Michael Owen e um de Wayne Rooney. Hernán Crespo e Walter Samuel marcaram para os argentinos.
Messi, que já tinha sido convocado tendo apenas 18 anos, não pôde participar por causa de uma suspensão. Ele havia sido expulso em um jogo contra a Hungria, que figurou como sua única advertência máxima até 2019.
Na ocasião, ele entrou no segundo tempo e disputou uma bola no meio-campo, quando acertou o braço no rosto do jogador húngaro e levou cartão vermelho.
Desta forma, será em 2026 a primeira vez em que Messi irá disputar um jogo da Argentina contra a Inglaterra.
O passado histórico que atravessa séculos
Há um pano de fundo histórico que explica boa parte da rivalidade entre os dois países. O grande pivô da tensão é a disputa territorial das Ilhas Malvinas — uma disparidade que já provocou guerras e plebiscitos e ainda faz parte da constituição argentina.
O local, chamado de Falkland Islands pelos britânicos, é disputado por argentinos e pelo Reino Unido pelo menos desde 1833, ano em que o país europeu passou a assumir o controle do arquipélago ao expulsar tropas argentinas.
As ilhas são um território britânico ultramarino autônomo, oficialmente. Elas ficam no sul do oceano Atlântico, a cerca de 500 quilômetros da costa da Patagônia.
São duas ilhas principais — East Falkland e West Falkland — e cerca de 770 ilhas menores, totalizando aproximadamente 12,1 mil km² de área. O número de habitantes supera 3 mil pessoas, concentradas principalmente na capital, Stanley.
Embora sejam administradas pelo Reino Unido, as ilhas tem seu controle contestado pela Argentina no século passado. Na década de 1980 essa divergência entre os países causou a Guerra das Malvinas.
A guerra em si durou poucos meses, entre abril e junho, em um conflito que foi iniciado pelo ditador argentino Leopoldo Galtieri, que achava que os britânicos não iriam revidar.
Todavia, a então primeira-ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, enviou um contra-ataque com dezenas de milhares de soldados e mais de 100 navios de guerra.
Essa derrota, aliás, acelerou o colapso da junta militar que comandava a Argentina e abriu caminho para a redemocratização do país, que viria a ocorrer no fim de 1983.
No direito internacional, não existe consenso de que as Ilhas Malvinas pertençam ao Reino Unido ou à Argentina. O que existe é uma disputa de soberania que, esta sim, é oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas.
A Argentina reivindica a soberania pois alega ser sucessora dos direitos territoriais da Espanha após sua independência — declarada em 1816 — e diz que a ocupação britânica de 1833 foi ilegal.
Desde a Resolução 2065, de 1965, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) considera que há uma disputa de soberania e pede que os dois países negociem uma solução pacífica — sem reconhecer nenhum dos lados como titular legítimo.
Aliados do Reino Unido, como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, tratam o Reino Unido como autoridade administradora das ilhas, mas geralmente evitam um reconhecimento formal da soberania britânica.
Já os países da América do Sul, especialmente membros do Mercosul, apoiam a reivindicação argentina em diferentes graus.
A população das ilhas prefere manter a soberania inglesa. Em um referendo oficial realizado em 2013, 99,8% dos eleitores das ilhas votaram pela manutenção do status de território britânico ultramarino.
Vale destacar que o conflito é tão relevante para os argentinos que o tema está na própria Constituição do país, aprovada em 1994.
A carta magna estabelece em sua Primeira Disposição Transitória que a recuperação do exercício da soberania sobre as Ilhas Malvinas, Geórgias do Sul, Sandwich do Sul e os espaços marítimos correspondentes é um objetivo permanente e irrenunciável do Estado argentino.
Mais divergências (e influências) culturais — que resvalam em nomes de clubes
A relação entre os dois países sempre foi paradoxal, dado que foram imigrantes britânicos, principalmente trabalhadores de ferrovias, que introduziram o futebol na Argentina no século XIX.
É por conta disso que alguns clubes famosos da Argentina possuem nomes com traços anglo-saxões, como River Plate e Newell’s Old Boys — sendo que este segundo foi o clube em que Lionel Messi estreou como jogador profissional, antes de ir ao Barcelona.
A influência cultural britânica era tão intensa que, até 1912, a associação de futebol do país ainda tinha nome em inglês. Ainda se usam termos como “corner” e “wing” em detrimento de traduções ao espanhol.
Com o tempo, o futebol argentino desenvolveu uma identidade própria e se descolou dos moldes ingleses.
Além dos campos, a presença britânica contemplava bancos, investimentos e toda a infraestrutura ferroviária que viabilizava a exportação de carne e outros produtos do interior. É também essa presença que aumentou a tensão entre Argentina e Inglaterra no futebol.
