
Os microplásticos são um dos maiores problemas que afetam o meio ambiente na atualidade por se espalharem com facilidade pelo ar e pelos oceanos. Formadas a partir da degradação do plástico, essas partículas minúsculas já foram encontradas, além da natureza, até dentro do nosso organismo.
Como solução para o tema, pesquisadores chineses anunciaram recentemente o desenvolvimento do plástico “vivo”, uma alternativa que contém micróbios dormentes em sua composição que, quando ativados, decompõem o material sem deixar fragmentos menores. Nos testes preliminares, a invenção chegou a se autodegradar em apenas seis dias sem a produção de microplásticos. Os resultados foram publicados na revista ACS Applied Polymer Materials.
De acordo com especialistas ouvidos pelo Metrópoles, a inovação representa uma esperança para resolver a questão dos microplásticos, porém ainda não representa uma alternativa definitiva.
“Esse plástico vivo tem propriedades mais interessantes do que outros plásticos vivos que já haviam sido sintetizados. O problema é que essa degradação acontece em ambiente controlado. Não é como se pudéssemos esperar que esse plástico fosse parar no meio ambiente, ficar exposto ao sol e, em seis dias, se decompor. É, sim, um avanço, mas infelizmente ainda não é uma solução”, avalia a professora de química ambiental Juliana Brito, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Paulo.
Além disso, apesar dos cientistas chineses já terem demonstrado que a composição do material pode ser utilizada em produtos, a maioria dos resultados vêm de produção em pequena escala. “Ainda estamos a alguns anos desse processo estar realmente disponível para consumo de forma ampla”, diz Juliana, que também é pesquisadora apoiada pelo Instituto Serrapilheira.
Na avaliação do pesquisador Adalberto Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o problema dos plásticos vai além do design dos materiais e também envolve os padrões de consumo e descarte. O especialista coordenou o relatório “Microplásticos: um problema complexo e urgente”, lançado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) em 2025.
“Toda tecnologia que contribua para reduzir a presença de microplásticos é mais do que bem-vinda e representa um avanço importante. No entanto, é pouco realista imaginar que uma única solução tecnológica seja capaz de substituir, de forma abrangente, os plásticos convencionais no curto prazo. Essa inovação deve ser vista, neste momento, como uma solução complementar”, afirma o vice-presidente da ABC na Região Norte.
Segundo os especialistas, ainda há uma série de desafios a serem superados para, de fato, o plástico “vivo” se tornar uma solução viável. Entre os principais, estão:
“Trata-se de uma inovação promissora, mas que ainda precisa avançar significativamente em termos científicos, tecnológicos e regulatórios para se tornar uma alternativa amplamente viável”, resume Val.
O professor Alexander Turra, da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que, mesmo que o plástico “vivo” supere todas as barreiras, é essencial ter em mente o uso e o descarte correto dos materiais como medidas essenciais para diminuir o número de microplásticos no meio ambiente.
“Os plásticos biodegradáveis podem fazer parte da solução, mas precisam ser utilizados de forma racional e nos contextos adequados. Além disso, não significa que devemos deixar de utilizar plásticos, mas sim que precisamos usá-los com muito mais racionalidade e responsabilidade”, aponta Turra.
Ainda sem solução definitiva, atualmente, a melhor ação para diminuir a produção de microplásticos continua sendo utilizar itens feitos do material de forma responsável e descartá-los em locais adequados e não na natureza.
