
Em uma casa de dez cômodos em Brasília, quatro já não podem mais ser utilizados. Os espaços foram completamente ocupados por objetos acumulados ao longo dos anos, tornando impossível a circulação.
As moradoras são uma aposentada de 82 anos, a filha Maria de Fátima de 63 anos, e a neta Fernanda Ágata, advogada de 30 anos. A idosa não terá a identidade revelada a pedido da família, que decidiu abrir as portas da residência apenas para a reportagem e mostrar uma realidade pouco discutida: o transtorno de acumulação.
Fernanda conta que o problema surgiu de forma silenciosa. “Não tivemos um momento específico para perceber. A acumulação acontece de forma progressiva e lenta. Quando vimos, quatro cômodos já estavam ocupados por objetos sem utilidade”, conta.
Apesar de a casa não apresentar mau cheiro, a família convive com mofo e insetos. A limpeza precisa ser constante, mas o excesso de objetos dificulta o trabalho.
“Temos a sensação de que, por mais que a limpeza esteja em dia, a casa permanece suja. Ela insiste que os insetos não têm relação com o que está acumulado”, relata a advogada.
Especialistas destacam que descartar qualquer objeto costuma provocar sofrimento. Fernanda conta que a avó fica extremamente nervosa, chora e se sente traída quando percebe que alguma coisa foi jogada fora.
A família tenta controlar a situação, já que alguns objetos que ela acumula oferecem risco à saúde da idosa e de todos que moram na casa. Já foram encontradas caixas de suco e de pizza vazias, marmitas de isopor usadas, garrafas, roupas velhas, coisas antigas e quebradas e até resto de comida.
Segundo Fernanda, tornar a história pública foi uma forma de conscientizar outras famílias. “A acumulação nem sempre é vista como uma doença que precisa de ajuda. Mostrar nossa realidade pode despertar atenção para outros casos”, diz.
Para o psicólogo Douglas Kawaguchi, professor da Faculdade Sírio-Libanês, acumular objetos faz parte do comportamento humano. O problema surge quando o acúmulo passa a comprometer a vida cotidiana.
“Guardar objetos é natural. O transtorno começa quando o comportamento perde sua finalidade prática e interfere na limpeza da casa, no convívio social e na qualidade de vida”, ensina.
O especialista explica que quem vive com o transtorno não acumula por preguiça ou desorganização. Guarda com a intenção de controlar tudo, porque os objetos representam, de alguma forma, segurança e proteção, mesmo quando não possuem utilidade.
Por isso, retirar pertences sem consentimento costuma agravar o problema. “Quanto mais a família pressiona ou joga objetos fora, maior tende a ser a desconfiança. O tratamento depende da construção de confiança e, geralmente, de um acompanhamento psicoterápico”, afirma Kawaguchi.
O especialista cita alguns comportamentos que podem ajudar a identificar o transtorno de acumulação: a casa vai perdendo aos poucos espaço para objetos, começa a existir dificuldade para limpar os ambientes, a pessoa sofre ao descartar qualquer item, por menor que seja, e o convívio social e a higiene podem ser comprometidos.
O tratamento costuma ser longo e é preciso muita paciência dos familiares. Mais do que reduzir a quantidade de objetos, o objetivo é compreender as causas do comportamento e reconstruir, aos poucos, a confiança da pessoa nas relações humanas.
Enquanto isso, a família da idosa segue tentando equilibrar respeito e cuidado. “Acredito que o desejo de doar e desfazer das coisas tem que partir dela. O que podemos fazer é controlar para que a situação não vire uma bola de neve”, conclui Fernanda.
