
Após a repercussão de um vídeo em que levanta suspeitas sobre a integridade das urnas eletrônicas, o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), negou, por meio de nota, que tenha questionado a integridade do sistema eleitoral brasileiro, no qual diz ter “integral confiança”.
“Em sua fala, que é brevíssima neste ponto, o pré-candidato Flávio Bolsonaro afirma expressamente que ‘não está questionando o sistema de votação brasileiro’ e exorta os diplomatas ali presentes a mandarem o maior número possível de representantes em missões de observação internacional”, diz trecho da nota.
O comunicado enviado ao Metrópoles é assinado por Flávio, pelo senador e coordenador da pré-campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL), e por Maria Claudia Bucchianeri, coordenadora jurídica da pré-campanha.
A nota busca rebater a repercussão de um vídeo em que Flávio relaciona as urnas eletrônicas usadas no Brasil às mesmas da empresa venezuelana Smartmatic, supostamente envolvida em um plano de fraude do governo da Venezuela nas eleições de 2012 e que foram alvo de um relatório da Agência Central de Inteligência (CIA), dos Estados Unidos.
“Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, declarou Flávio em um evento com diplomatas nessa terça-feira (21/7), em Brasília. Ao contrário do que ele afirma, a Smartmatic não fornece máquinas de votação nem software para as eleições brasileiras.
Na nota, o senador não explica a relação que fez entre as urnas utilizadas nas eleições brasileiras e as que foram contestadas na Venezuela.
Na reunião com diplomatas, o pré-candidato ao Palácio do Planalto pediu ainda que os países representados na plateia “possam mandar a maior quantidade possível de observadores para as eleições”. Veja o vídeo:
A fala de Flávio ocorreu durante um almoço com embaixadores estrangeiros no evento “Debating Brazil”, promovido pela agência Novo Selo Comunicação e pelo The Brazilian Report, veículo que cobre o Brasil em língua inglesa. A reunião foi realizada no restaurante Oscar, no Brasília Palace Hotel.
Leia a nota de Flávio na íntegra:
“Não é verdade que o pré-candidato Flávio Bolsonaro tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil.
Em sua fala, o pré-candidato se limitou a relatar dois fatos públicos e amplamente divulgados pela imprensa: 1) o fato originariamente gerador da inelegibilidade de seu pai, Jair Bolsonaro (uma notória reunião com embaixadores); 2) um relatório recentemente divulgado pela CIA, a respeito de fraudes nas eleições venezuelanas.
Em sua fala, que é brevíssima neste ponto, o pré-candidato Flávio Bolsonaro afirma expressamente que ‘não está questionando o sistema de votação brasileiro’ e exorta os diplomatas ali presentes a mandarem o maior número possível de representantes em missões de observação internacional.
Afastada qualquer descontextualização das falas do pré-candidato, sua equipe de pré-campanha reafirma sua integral confiança no sistema eleitoral brasileiro e sua crença irrestrita de que as missões de observação internacional devem ser fortemente estimuladas, pois contribuem para o ‘aperfeiçoamento do processo eleitoral, ampliando a transparência, a integridade e a confiança pública nas eleições'”.
O TSE desmentiu que utiliza urnas eletrônicas da empresa venezuelana. Em nota publicada em 2020 e atualizada em 8 de julho de 2026, o TSE esclareceu que as urnas das eleições nacionais não são fornecidas pela empresa.
“São falsas as mensagens que circulam nas redes sociais segundo as quais a empresa Smartmatic fornece urnas eletrônicas ou softwares utilizados em urnas no Brasil. Todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral do país”, diz o texto.
O Tribunal reiterou que a Smartmatic “não forneceu nem fornece” urnas para as eleições do Brasil, “tampouco trabalhou na programação” dos equipamentos. “A empresa atuou apenas no treinamento de profissionais que prestaram suporte técnico e operacional para as urnas brasileiras”, esclareceu o TSE.
Em 2022, o TSE também desmentiu que a empresa venezuelana tivesse acesso ao programa das urnas brasileiras e afirmou que o software é desenvolvido e gerido apenas pela Justiça Eleitoral.
“O sistema eletrônico de votação do país utiliza meios próprios e criptografados de comunicação e transmissão de dados, não tendo nenhum contato com redes públicas, como a internet. Em mais de 20 anos de trajetória, o sistema foi reiteradamente testado e comprovadamente isento de quaisquer formas de manipulação, de fraude na totalização de votos ou de quebra do sigilo do voto”, afirmou o tribunal.
O TSE também informou que a empresa já prestou serviços de conexão de dados e voz, e que perdeu uma licitação para fabricar urnas eletrônicas em 2020.
“A Smartmatic celebrou contratos com o TSE em outras ocasiões somente para a prestação de serviços de conexão de dados e voz, e não para o desenvolvimento ou operação da urna eletrônica. Além disso, a empresa participou da licitação para a fabricação de urnas eletrônicas para 2020, mas perdeu para a empresa Positivo”, complementa a nota.
As declarações de Flávio se assemelham a uma estratégia adotada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que promoveu uma reunião com embaixadores de diversos países para apontar suspeitas sobre o sistema de votação brasileiro.
A reunião rendeu uma condenação ao ex-presidente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a oito anos de inelegibilidade. Na ocasião, a Corte entendeu que houve abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, já que a reunião foi realizada no Palácio do Planalto com o uso da estrutura da Presidência.
