
A relação entre obesidade e câncer, o papel da alimentação durante o tratamento e novas formas de tornar terapias mais acessíveis estão entre os temas que chamaram atenção na Reunião Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês) 2026.
Considerado o maior congresso de oncologia do mundo, o encontro reúne mais de 35 mil especialistas em Chicago, nos Estados Unidos, para discutir resultados de pesquisas que podem influenciar o cuidado de pacientes nos próximos anos.
Entre os estudos apresentados, quatro trabalhos despertaram interesse por abordarem questões que vão além dos medicamentos tradicionais e envolvem fatores como metabolismo, perda de peso, nutrição e estratégias para ampliar o acesso a tratamentos. Confira:
Os agonistas de GLP-1, grupo de medicamentos usados no tratamento da diabetes e da obesidade, também começam a despertar interesse na oncologia. Um dos estudos apresentados no congresso investigou se esses remédios podem influenciar a evolução de diferentes tipos de câncer.
Pesquisadores analisaram mais de 10 mil pacientes com cânceres de mama, pulmão, próstata, colorretal, pâncreas, fígado e rim. Os resultados mostraram que pacientes que utilizaram agonistas de GLP-1 após o diagnóstico apresentaram menor risco de progressão para doença metastática em vários tipos de tumor. As reduções mais consistentes foram observadas nos cânceres de mama, pulmão, colorretal e fígado.
A oncologista Ludmila Koch, do Hospital Israelita Albert Einstein, afirma que os dados ajudam a reforçar uma discussão crescente sobre a influência do metabolismo na evolução do câncer.
Apesar dos resultados, ela ressalta que ainda não é possível afirmar que os medicamentos atuam diretamente contra os tumores. “Pode existir um efeito relacionado à perda de peso, ao melhor controle glicêmico ou à redução da inflamação crônica. Ainda precisamos de estudos clínicos para entender exatamente o que está acontecendo”, ressalta.
Segundo a especialista, o principal mérito do trabalho é abrir caminho para pesquisas desenhadas especificamente para responder essa pergunta.
Outro estudo avaliou uma estratégia que desperta curiosidade de muitos pacientes. Pesquisadores italianos analisaram os efeitos do jejum de curto prazo em mulheres com câncer de ovário avançado.
Segundo a autora do trabalho, Claudia Marchetti, da Fondazione Policlinico Universitario Agostino Gemelli IRCCS, em Roma, a busca por novas abordagens é motivada pelas dificuldades ainda enfrentadas por pacientes com esse tipo de tumor.
“Apesar dos avanços na cirurgia e na quimioterapia, pacientes com câncer de ovário avançado ainda enfrentam prognósticos desfavoráveis. Isso ressalta a necessidade urgente de estratégias seguras, de baixo custo e de fácil implementação que possam aumentar a eficácia do tratamento e melhorar o prognóstico das pacientes”, afirmou ela em coletiva de imprensa.
No estudo, as participantes permaneceram em jejum por 36 horas antes da quimioterapia e por mais 24 horas após cada ciclo, com ingestão calórica bastante reduzida. Em comparação com pacientes que seguiram alimentação livre, o grupo submetido ao jejum apresentou menores níveis de insulina, melhor resposta ao tratamento e maior sobrevida livre de progressão.
Após cerca de 18 meses de acompanhamento, a sobrevida livre de progressão chegou a 38 meses entre as pacientes que fizeram jejum, contra 24 meses no grupo controle. Os pesquisadores também observaram alterações em células do sistema imunológico que sugerem um ambiente menos favorável ao crescimento tumoral.
Apesar dos resultados, os autores destacam que se trata de um estudo piloto, realizado com um número reduzido de participantes. Por isso, os achados ainda precisam ser confirmados em pesquisas maiores antes que a estratégia possa ser incorporada à prática clínica.
O estudo BWEL acompanhou mulheres com câncer de mama em estágios II e III e índice de massa corporal acima de 27. Parte das participantes recebeu um programa estruturado de mudança de estilo de vida com foco em emagrecimento, enquanto o outro grupo recebeu apenas orientações gerais de saúde.
Após seis meses, as pacientes que participaram do programa apresentaram melhora da função física, da saúde mental, da saúde geral e da capacidade de realizar atividades sociais. Elas também relataram menos fadiga.
Os resultados mostram que o controle do peso pode trazer benefícios que vão além da prevenção, contribuindo para o bem-estar durante e após o tratamento. Os dados também reforçam uma tendência observada nos últimos anos de incorporar hábitos de vida saudáveis como parte do cuidado oncológico.
“O estudo ajudou a demonstrar que essas mudanças de estilo de vida não são apenas um complemento do tratamento. Elas podem trazer benefícios concretos para o bem-estar e para a recuperação dessas mulheres”, explica a oncologista Gabrielle Scattolin.
Segundo ela, uma das principais mensagens do estudo é que o cuidado com a alimentação, peso e atividade física também fazem parte do tratamento do câncer de mama.
“É claro que não substitui cirurgia, medicamento, quimioterapia, mas pode sim ajudar o paciente a enfrentar melhor o tratamento e ter uma qualidade de vida superior até do que ela tinha antes do diagnóstico”, afirma.
Um dos estudos de maior destaque da ASCO 2026 envolveu pacientes com câncer de cabeça e pescoço recorrente ou metastático. Pesquisadores da Índia testaram uma combinação de quimioterapia oral em baixas doses com imunoterapia em dose muito inferior à utilizada habitualmente.
O resultado surpreendeu. A sobrevida mediana chegou a 10,3 meses no grupo que recebeu a nova estratégia, contra 6,2 meses entre os pacientes tratados com quimioterapia convencional.
Além disso, a taxa de resposta ao tratamento foi mais que duas vezes maior e os eventos adversos graves ocorreram com menor frequência. Outro dado que chamou atenção foi o custo. O esquema experimental teve custo estimado em cerca de US$ 230 por mês, valor muito inferior ao dos tratamentos convencionais com imunoterapia.
Para Ludmila, esse aspecto pode ter relevância especial para países de baixa e média renda. “Apesar de a imunoterapia ter transformado o tratamento do câncer de cabeça e pescoço, o custo ainda é uma das principais barreiras globais. O estudo mostrou uma estratégia com valor muito inferior ao dos esquemas tradicionais e que manteve benefício clínico relevante”, afirma.
Segundo ela, os resultados levantam uma discussão importante para a oncologia. “Como tornar tratamentos eficazes também acessíveis para a maioria dos pacientes? Esse talvez seja um dos debates mais importantes da área atualmente”, aponta.
Ainda que boa parte desses achados precise ser confirmada em pesquisas futuras, especialistas avaliam que compreender esses aspectos pode ajudar a tornar o tratamento do câncer mais eficaz, mais tolerável e mais adequado à realidade de diferentes grupos de pacientes.
