
Um novo projeto científico está permitindo observar o corpo humano em um nível de detalhe nunca alcançado. Chamado de Atlas de Órgãos Humanos (HOA, na sigla em inglês), o trabalho reúne imagens em três dimensões de diferentes partes do organismo, desde órgãos inteiros até estruturas celulares, com precisão microscópica.
Publicada na revista Science Advances em 11 de março, a pesquisa apresenta uma nova forma de visualizar como o corpo é organizado.
A ideia é mapear a estrutura de órgãos como cérebro, coração, pulmões, fígado e rins de maneira integrada, permitindo entender melhor como eles funcionam e como reagem a diferentes doenças.
Para os pesquisadores, o corpo humano pode ser comparado a uma estrutura em camadas, formada por células, tecidos e órgãos que se organizam de forma interligada. O atlas permite enxergar essas camadas com um nível de detalhe que antes não era possível.
O projeto utiliza uma técnica avançada de imagem chamada tomografia hierárquica de contraste de fase. O método usa raios X gerados em um acelerador de partículas de alta potência, capaz de produzir imagens muito mais detalhadas do que os exames tradicionais.
Com essa tecnologia, os cientistas conseguiram analisar órgãos completos de doadores sem danificá-los, ampliando as imagens até alcançar a escala celular. Isso permite observar pequenas estruturas internas e entender melhor alterações associadas a diferentes doenças.
“Este é um recurso não só para pesquisadores, médicos e educadores, mas também para qualquer pessoa curiosa sobre como o corpo humano é construído”, diz o cientista Paul Tafforeau, um dos responsáveis pelo projeto, em comunicado.
Até agora, o atlas reúne dados de dezenas de doadores, com imagens de 87 órgãos e centenas de conjuntos tridimensionais. Em alguns casos, é possível analisar vários órgãos de uma mesma pessoa, o que ajuda a entender como uma condição de saúde pode afetar diferentes partes do corpo ao mesmo tempo.
Além de contribuir para o ensino e a pesquisa, o atlas também pode ajudar no desenvolvimento de novas formas de diagnóstico. Estudos anteriores, com a mesma tecnologia, já permitiram identificar alterações microscópicas associadas a doenças, como danos nos pulmões de pacientes com Covid-19 e características de outras condições.
Os dados também podem ser usados para treinar sistemas de inteligência artificial, que vêm sendo cada vez mais utilizados na área da saúde. Com imagens mais detalhadas, esses sistemas podem aprender a identificar sinais precoces de doenças com maior precisão.
“Estamos muito interessados em ver como a comunidade de inteligência artificial vai utilizar esse material”, afirma a biofísica Claire Walsh, que coordena o projeto.
Os pesquisadores afirmam que o atlas continuará sendo ampliado nos próximos anos. A expectativa é que, no futuro, seja possível aplicar a técnica em corpos humanos completos, o que pode mudar a forma como a anatomia é estudada e compreendida.
