
Acordar exausto antes mesmo de o dia começar tornou-se o “preço invisível” de uma rotina acelerada e marcada pelo excesso de trabalho. Embora esse efeito colateral esteja ligado aos “novos tempos”, especialistas em saúde hormonal e mental alertam que a sensação de cansaço constante pode esconder outros problemas de saúde, como alterações hormonais, transtornos emocionais e quadros relacionados à qualidade do sono.
Buscando entender melhor as causas por trás da fadiga persistente, a coluna Claudia Meireles conversou com dois especialistas: o ginecologista endócrino Igor Trotte e o psiquiatra e psicogeriatra Gustavo Omena. Segundo eles, alterações hormonais e esgotamento emocional estão entre as causas frequentemente negligenciadas quando o assunto é exaustão.

“Hormônios desregulados afetam diretamente energia, sono, concentração e até o humor. Muitas vezes, o paciente acredita que está apenas cansado por conta da rotina, mas existem condições hormonais importantes por trás desse quadro, como alterações da tireoide, resistência à insulina, deficiência de testosterona, menopausa ou síndrome dos ovários policísticos”, explica Igor Trotte.
Para Gustavo Omena, o aumento dos casos de estafa mental também ajuda a explicar o crescimento das queixas de cansaço extremo.
“Dados divulgados em março de 2025 pelo INSS e pelo Ministério da Previdência Social apontam que o Brasil registrou recorde de afastamentos por adoecimento psicológico, com mais de 546 mil licenças relacionadas à saúde mental”, salienta o especialista.
Embora alterações hormonais sejam cada vez mais observadas em brasileiros de diferentes faixas etárias, Igor Trotte frisa que as mulheres tendem a sentir esses impactos com mais intensidade ao longo da vida.
“Oscilações hormonais podem provocar desde indisposição e dificuldade de concentração até irritabilidade, ansiedade e queda de produtividade. O problema é que esses sintomas acabam sendo normalizados no dia a dia”, afirma o ginecologista endócrino.

Além do desequilíbrio na produção ou na ação dos hormônios afetar energia e disposição, Gustavo Omena chama atenção para fatores emocionais como gatilhos importantes da sensação de exaustão.
“O corpo e a mente funcionam de maneira integrada. Quadros de ansiedade, depressão, burnout e estresse crônico frequentemente se manifestam primeiro por meio do cansaço físico. Muitas pessoas continuam funcionando no automático sem perceber que estão emocionalmente esgotadas”, explica Omena.

O médico alerta ainda que a privação de sono e o excesso de estímulos digitais também têm impacto importante no quadro.
“Dormir não significa necessariamente descansar. Hoje, vemos muitos pacientes que até permanecem horas na cama, mas não conseguem atingir um sono reparador por conta da ansiedade, hiperestimulação e excesso de preocupações”, afirma.
Segundo eles, a rotina também é importante para a manutenção do ânimo e do vigor. Ambos especialistas alertam para a necessidade de escolhas conscientes no dia a dia para evitar problemas de saúde no futuro.
“Sedentarismo, alimentação inadequada, excesso de cafeína, consumo de álcool e jornadas prolongadas de trabalho também podem intensificar a sensação de fadiga”, destaca Igor Trotte.
Quando a exaustão se torna limitante, a recomendação é buscar avaliação médica. “O principal alerta é quando o cansaço passa a comprometer atividades simples da rotina ou persiste mesmo após períodos de descanso”, conclui Gustavo Omena.
