
Os baixos níveis de açúcar no cérebro podem interferir diretamente na formação de neurônios e na construção das conexões cerebrais. Parte desse processo depende da mielina — camada que protege os neurônios e garante a comunicação rápida entre as células nervosas. A descoberta, publicada na revista Nature Neuroscience, indica que a glicose não serve apenas como combustível, mas também atua como um sinal que orienta o desenvolvimento cerebral.
O estudo mostra que, durante as fases iniciais da vida, a glicose ajuda a regular o comportamento de células progenitoras de oligodendrócitos, conhecidas como OPCs. Essas células podem seguir dois caminhos: continuar se multiplicando ou amadurecer e se transformar em oligodendrócitos, responsáveis pela produção da mielina.
A mielinização começa ainda antes do nascimento e segue até a vida adulta, sustentando etapas importantes do desenvolvimento, como sentar, engatinhar, andar e falar.
Para entender como esse processo ocorre, os cientistas mapearam os níveis de glicose em cérebros de camundongos em desenvolvimento. Eles observaram que a quantidade de açúcar varia conforme a região cerebral e ao longo do tempo.
Nas áreas com níveis mais altos de glicose, havia mais células progenitoras em divisão. Já nas regiões com menor quantidade, as células começavam a amadurecer e a formar oligodendrócitos produtores de mielina.
Os pesquisadores também identificaram que esse mecanismo depende de uma enzima chamada ACLY, responsável por transformar a glicose em moléculas que ativam genes ligados à multiplicação celular. Sem essa enzima, as células perdem parte da capacidade de se dividir, o que pode comprometer temporariamente a formação da mielina.
Segundo os autores, esse funcionamento ajuda a explicar por que a mielina se forma em momentos diferentes em regiões distintas do cérebro. A glicose não apenas alimenta as células, mas também ajuda a definir quando elas devem se multiplicar ou iniciar a formação da mielina.
Os resultados podem ter implicações importantes para o desenvolvimento cerebral. A fase analisada nos modelos animais corresponde, aproximadamente, ao período entre 32 e 40 semanas de gestação humana — um momento crítico para a formação da substância branca do cérebro.
Esse período é especialmente sensível em bebês prematuros, que podem apresentar maior risco de lesões nessa região. Segundo os autores, entender como o metabolismo influencia a formação da mielina pode abrir caminho para estratégias de suporte metabólico capazes de proteger essas células em fases vulneráveis do desenvolvimento.
A descoberta também pode contribuir para pesquisas sobre doenças marcadas pela perda de mielina, como a esclerose múltipla. Ao compreender as vias metabólicas que controlam a multiplicação das células progenitoras e o amadurecimento dos oligodendrócitos, cientistas podem buscar novas formas de estimular o reparo da mielina.
O estudo reforça que o metabolismo tem um papel ativo na construção do cérebro — e abre caminho para estratégias que possam proteger ou até recuperar a mielina ao longo da vida.
