
Se reconhecer um relacionamento amoroso disfuncional nem sempre é uma tarefa fácil, e entender os sinais de uma amizade tóxica pode ser ainda mais desafiador. Limites ultrapassados, favores unilaterais e medir palavras para evitar conflitos estão entre alguns dos sinais de que uma relação de amizade deixou de ser saudável e precisa de novos combinados.
Ouvida pela coluna, a psicóloga Candice Galvão explica que, antes de determinar se uma amizade é ou não tóxica, é preciso observar os sentimentos e comportamentos presentes na relação. Conflitos, ciúmes, frustrações e até períodos de afastamento podem fazer parte de amizades de longa data. O problema surge quando esses episódios deixam de ser pontuais e passam a se repetir como um padrão.
“Uma amizade pode se tornar profundamente prejudicial quando existe, por exemplo, desrespeito sistemático aos limites, manipulação, controle, humilhação, desqualificação, chantagem emocional ou uma cobrança constante que coloca uma pessoa em posição de dívida afetiva”, lista a psicóloga.

De acordo com a profissional, ter as conquistas constantemente diminuídas, ter sentimentos invalidados e se sentir drenada ou emocionalmente esgotada após encontros estão entre os comportamentos que podem aparecer em relações tóxicas.
Além disso, apesar de o nível de troca entre os indivíduos ser, muitas vezes, um parâmetro para avaliar o quanto uma amizade é saudável, a psicóloga destaca que esse aspecto, isoladamente, não deve ser determinante para classificar uma relação como tóxica.

“Amizade não significa fazer tudo na mesma proporção o tempo inteiro, porque as pessoas atravessam fases diferentes. Mas uma relação saudável pressupõe alguma possibilidade de troca, cuidado e reconhecimento mútuo”, completa a profissional.
Outro ponto importante é olhar para si antes de analisar apenas o comportamento do outro. Para a psicóloga, é valido observar como determinadas atitudes afetam a própria pessoa.
Se, para preservar uma amizade, é necessário se calar constantemente, esconder partes de si ou agir sempre com receio da reação do outro, pode ser um sinal de que a relação precisa ser reavaliada.
“Uma relação pode até nos confrontar, e isso pode ser saudável. Uma boa amiga pode discordar, nos chamar à responsabilidade, apontar algo que não queremos enxergar. A diferença é que confrontar não é humilhar, discordar não significa controlar e colocar limite não é punir”, destaca.
Ao reconhecer uma amizade tóxica, a decisão de encerrá-la deve ser tomada de forma consciente.
Antes de mais nada, é importante compreender que o fim de uma amizade também pode envolver um processo de luto — e que ele não necessariamente precisa acontecer por meio de uma grande ruptura.

Em alguns casos, a relação pode ser reconstruída a partir de conversas francas e do estabelecimento de novos limites.
“Existem aquelas em que o afastamento é necessário justamente porque qualquer tentativa de estabelecer limites é recebida com mais controle, agressividade ou manipulação. Além disso, é importante abandonar a ideia de não poder ir embora devido aos anos de amizade. Na verdade, pode sim”, afirma a psicóloga.
