
Faça um teste antes de continuar a leitura. Pegue o celular, abra o ChatGPT ou qualquer assistente de inteligência artificial e pergunte quais são as melhores empresas do seu setor na sua cidade.
Se o nome da sua empresa não aparecer, não adianta reclamar do algoritmo. O problema não é técnico. Ele é mais antigo e mais incômodo do que isso.
A IA não inventou aquela resposta. Ela leu o que existe sobre você e sobre os outros: avaliações de clientes, notícias, comentários, reclamações, comparativos, o que ex-funcionários escrevem, o que parceiros dizem em público. E resumiu. O seu site institucional é apenas uma das fontes. Provavelmente não é a mais influente.
É aqui que começa a mudança que eu considero a mais importante para quem empreende nesta década: a sua marca deixou de ser algo que você constrói e passou a ser algo que você recebe emprestado. Uma licença, concedida pelo mercado, que precisa ser renovada o tempo todo. E que pode ser cassada.
Existe um jeito simples de entender o que marca realmente é. O estrategista americano Jeff Gibbard resume em três perguntas.
A observação decisiva de Gibbard é esta: fidelidade de cliente não nasce quando duas dessas três coisas batem. Só nasce quando as três contam a mesma história. Empresa que fala bonito e entrega mal tem prazo de validade. Empresa que entrega bem e não é citada por ninguém cresce devagar e depende de sorte. As duas situações são comuns e as duas são caras.
O pesquisador dinamarquês René Larsen publicou este ano um trabalho que organiza décadas de teoria de marca em uma ideia só. A marca não existe apenas dentro da empresa, como propriedade estratégica. Também não existe apenas na cabeça do cliente. E não existe apenas na cultura, como símbolo. Ela nasce no cruzamento dos três.
Traduzindo para o mundo real: você decide o que quer ser, o cliente decide o que entendeu e a sociedade decide o que aquilo significa. Três votos. Você tem um.
Quem administra empresa no Brasil conhece isso na prática. O empresário acha que vende qualidade. O cliente acha que compra preço. E o mercado, quando fala do setor, associa aquilo a algo que ninguém dentro da empresa colocou no plano estratégico. Essa distância sempre existiu. O que mudou foi a velocidade com que ela vira pública e a facilidade com que qualquer pessoa a encontra em quinze segundos.
Existe um estudo feito pela pesquisadora Olesya Poluyko, sobre a relação da geração mais nova com marcas. A conclusão vale para todo mundo, não só para jovens.
A distinção central é entre visibilidade e relevância. Visibilidade é ser visto e esquecido. É o anúncio que a pessoa pula. Relevância é outra coisa: exige contribuição, contexto e participação real. E a pesquisa mostra um comportamento novo, que qualquer um que use redes sociais reconhece: quando uma marca tenta entrar numa conversa que não é dela, o público não lê aquilo como participação. Lê como tentativa de extrair atenção.
Existe até um efeito perverso descrito no estudo. Quanto mais a empresa se esforça para parecer moderna, descolada e conectada ao momento, mais evidente fica que ela não é. Todo mundo já viu isso acontecer com alguma marca conhecida. O post que queria pegar uma tendência e virou motivo de piada.
Para quem empreende, a lição é econômica, não estética. Investir em parecer relevante custa caro e tem retorno decrescente. Investir em ser útil dentro de um assunto que a sua empresa domina de verdade custa menos e acumula.
Rei Inamoto passou mais de dois anos pesquisando como marcas modernas realmente cresceram. Ele foi diretor global de criação da AKQA, uma das maiores agências digitais do mundo, e hoje comanda a I&CO, entre Nova York, Tóquio e Cingapura. O livro dele saiu neste ano no Japão.
O padrão que ele encontrou contraria o manual. Uma bolsa da Uniqlo ficou parada por dois anos até que os próprios clientes descobrissem para que ela era boa e a transformassem em fenômeno. O copo da Stanley virou febre mundial sem grande campanha. A OpenAI se tornou uma das marcas mais valiosas do planeta tratando lançamento de produto como conteúdo.
A leitura dele é direta: essas marcas não lideraram com história emocional, lideraram com produto. A confiança veio da experiência, não da mensagem. E a marca veio depois.
Isso muda onde o dinheiro deve entrar. Se a confiança nasce da experiência, o maior investimento em marca da sua empresa não está no marketing. Está no prazo que você cumpre, no atendimento que responde, na fatura que não tem pegadinha, no jeito como você resolve o erro que cometeu. É menos glamouroso e é mais barato do que a maioria das campanhas. E, ao contrário da campanha, não para de render quando a verba acaba.
Jason Mayden é diretor de design da Jordan, a marca da Nike. Entrou na empresa como o primeiro estagiário da marca, aos 19 anos, vindo de um bairro pobre de Chicago. Em uma entrevista recente, ele explicou de forma simples por que algumas empresas duram e outras não.
Existem empresas raiz e empresas fruto. A raiz cria um jeito de fazer as coisas. O fruto imita. E ele dá o exemplo perfeito: a Apple não inventou a simplicidade, ela é fruto do trabalho de Dieter Rams na Braun, décadas antes. O que separa uma da outra não é criatividade. É disciplina. Qualquer um faz uma coisa bem uma vez. Fazer pequenas coisas bem, de forma consistente, por muito tempo, é raro.
Mayden tem ainda a melhor definição de estratégia comercial que eu já ouvi de um designer. Ataque é conexão emocional e narrativa. Defesa é qualidade de produto e capricho na execução. Empresa que só ataca vira campanha sem substância. Empresa que só defende vira commodity com boa engenharia, competindo por centavos até morrer.
E ele resume o critério de decisão em uma frase que deveria estar na parede de toda a empresa: pensar em décadas, não em temporadas. Se a sua estratégia não sobrevive a três trocas de gestor, você não tem estratégia. Tem plano de mídia com ambição.
Agora juntemos tudo com a tecnologia que dominou a conversa nos últimos anos.
Mayden se recusa a chamar de inteligência artificial. Ele chama de imaginação aumentada e faz uma observação que economiza muito dinheiro: se você não tem repertório, a tecnologia não resolve, porque pedido fraco gera resultado fraco.
A consequência prática para o empreendedor é dupla.
A primeira é boa. Uma empresa pequena hoje produz material, análise, proposta e conteúdo em um volume que antes exigia estrutura. O custo de parecer profissional despencou. Isso derruba barreiras que protegiam concorrentes maiores por décadas.
A segunda é dura. Se o custo de produzir despencou para você, despencou para todos os seus concorrentes ao mesmo tempo. O que era diferencial virou piso. Em pouco tempo, todo mundo do seu setor terá site bom, texto bem escrito, proposta bem formatada e presença digital limpa. Quando todo mundo produz bem, produzir bem deixa de significar alguma coisa.
O que não escala automaticamente é critério. Saber o que fazer, o que recusar e o que sustentar quando ninguém está olhando. Nos próximos anos, a escassez não será conteúdo. Será discernimento e prova. Ou seja: exatamente as duas coisas que a inteligência artificial não fabrica no seu lugar.
A pergunta que o empresário costuma fazer é como fortalecer a minha marca. É a pergunta errada, porque parte de um pressuposto que não é mais verdadeiro: o de que a marca é dele.
A pergunta certa é anterior e mais difícil: por que alguém me daria permissão de continuar fazendo parte da vida dele?
Mayden responde isso de um jeito que eu não consigo melhorar. Quando a Jordan entra em um mercado novo, ele diz, o trabalho não é estratégia de produto nem penetração de mercado. É conexão. Por que você deveria acreditar na gente? Porque a gente acredita em você. E quando isso é visto e é consistente, a marca não precisa mais ser promovida, porque as próprias pessoas passam a defendê-la.
Soa suave. Não é. É a coisa mais difícil de executar dentro de uma empresa, porque exige que a promessa seja verdadeira em todos os pontos em que ela pode ser testada, inclusive naqueles que não aparecem no relatório do mês.
Marca não é o que a empresa comunica. É o que ela é obrigada a sustentar quando ninguém está comunicando nada. Nunca foi tão barato falar. E nunca foi tão caro mentir.
