
O mundo ficou impressionado - e igualmente intrigado - com a imensidão das primeiras imagens divulgadas pela Nasa do Telescópio James Webb. A sonda espacial trouxe visões sem precedentes do Quinteto de Stephan, da Nebulosa do Anel do Sul, da Nebulosa de Carina, um complexo de galáxias, onde é póssível observar uma de 13,1 bilhões de anos atrás, a análise da atmosfera de um exoplaneta.
As fotos observadas são somente o começo da missão de Webb. "Não se trata de maneira alguma do resultado final da operação", salienta o coordenador do Departamento de Astronomia da Universidade de São Paulo (USP), Roberto Dias da Costa. Para ele, a janela aberta pela investigação espacial, inclusive, deve ser o primeiro passo para a humanidade encontrar vida fora da Terra.
"Entre as descobertas mais sensacionais que o Webb deve nos proporcionar eu destaco duas coisas. Primeiro, a demonstração da existência de atividade biológica extraterrestre. Essa descoberta, e com certeza ela irá acontecer, tem potencial para ser transformadora. Não só do ponto de vista científico, mas também ético, cultural, religioso e psicológico", projeta Dias da Costa. Esta vida, no entanto, não será como os diversos filmes no cinema trouxeram para o nosso imaginário. O astrônomo brinca que "naves chegando em Nova Iorque" são ficção científica e que acredita que as manifestações iniciais se darão em bactérias ou algas.
Outro ponto que anima Dias da Costa sobre as perspectivas futuras está dentro da astrofísica e de suas pesquisas na academia. Ele confia que o Webb irá elucidar a natureza da Energia Escura e outro mistério moderno da ciência. "Quais as razões da expansão do universo estar acelerando? Isso intriga astrônomos e astrofísicos". Ele recorda que o telescópio estará na vanguarda do conhecimento, mas não sozinho. Outros estão sendo projetados. "Teremos telescópios com mais de 20 metros de diâmetros, chamados de ELTs, são parte fundamental e serão nas próximas décadas de estudos".
Projetada há 25 anos atrás, a bilionária missão - com valor aproximado de 10 bilhões de dólares - tem seus impactos para o Planeta Terra e a humanidade em dois aspectos primordiais: desenvolvimento tecnológico e de conhecimento. "Os avanços tecnológicos são puxados pelas pesquisas básicas. A eletrônica surgiu assim, em muitas pesquisas relacionadas à astronomia. Notebook é outro exemplo que aparece nas pesquisas de exploração da lua. Temos uma quantidade enorme de subprodutos (...) o ponto fundamental continua sendo o avanço do conhecimento. Saímos das cavernas por sermos curiosos. A curiosidade em entender nosso entorno, nos leva para frente", explica o astrônomo.
Nos registros publicados pela Nasa é possível observar um conjunto de galáxias a uma distância de 4,6 bilhões de anos luz (acima) que gera um efeito de lente gravitacional e permite enxergar objetos primordiais, ainda mais distantes. "Essa foto é uma das que mais me chamou a atenção. No fundo da imagem, tem uma galáxia de 13,1 bilhões de anos atrás. Como o universo tem 13,8 bilhões de anos, significa que estamos observando uma galáxia do primeiro bilhão de ano. É uma galáxia primitiva, com uma área imensa para pesquisa", pontua Dias da Costa.
A relação com o tempo traz dúvidas sobre sua passagem no espaço. O astrônomo explica que o olhar do Webb é profundo e vai mais atrás no tempo em comparação com o Telescópio Hubble, seu antecessor. "Vamos lembrar que a informação no universo não viaja instantaneamente. Ela tem uma certa velocidade, a velocidade da luz. Quando olhamos para o sol, por exemplo, vemos ele como era oito minutos atrás. É o tempo que a luz demora para vir até a Terra. Se você olha a outra estrela mais perto, ela está a quatro anos luz".
Os exoplanetas, planetas em torno de estrelas que não o Sol, também chamaram a atenção do astrônomo. "Destaco o espectro do exoplaneta mostrando a presença da molécula de água. São um tema de ponta atualmente e é novo. Sempre brinco que, quando comecei a estudar, se conhecia dois planetas em torno de outras estrelas e pela ficção cientifica: 'Vulcano e Tatooine'. Hoje, já conhecemos mais de 5,2 mil". De acordo com ele, a maneira que o Webb rapidamente identificou a presença de água, irá auxiliar no avanço dos estudos de maneira contundente. "Quem estuda exoplanetas está atrás dos biomarcadores, são moléculas que indicam atividade biológica, como metano, ozônio etc".
A principal mudança entre Webb e Hubble está na capacidade de captação. "O Hubble opera na faixa visível ultravioleta e o Webb opera no infravermelho. Não são imagens idênticas, são análogas. O aglomerado de galáxias é análoga com uma imagem que o Hubble fez usando vários dias e foi feita com 12 horas de exposição". O diâmetro do Webb é três vezes maior em relação ao Hubble. "Isso significa que ele tem uma área dez vezes maior. Ele já foi projetado desde sua construção para ser o mais eficiente possível na faixa infravermelha do espectro. Os espelhos são de ouro", acrescenta Dias da Costa.
A beleza causou dúvida sobre o realismo das imagens. O astrônomo esclarece que elas sofreram pequenas alterações para chegar na faixa visível, com uma paleta de cores compatível com a física de cada objeto. "O telescópio opera na faixa do infravermelho, pois ela é mais eficiente para os objetivos dele. Todas imagens foram coletadas no infra e depois processadas de maneira a chegar a faixa visível com uma paleta de cores compatível".
Dias da Costa utiliza o retrato do aglomerado das galáxias e da Nebulosa do Anel Sul para explanar seu ponto. "A foto tem galáxia com tons em brancos azulados, mais jovens, e outras em tons avermelhados, mais antigos e distantes. Os tons foram escolhidos e ajustados pelo computador. Isso foi feito para que os resultados revelassem o máximo possível das características físicas (...) a Nebulosa Planetária NGC 3132, passa pelo mesmo processo. Ela tem uma paleta de cores, escolhida para realçar nuances, a composição química da parte mais interna e externa do objeto. Tudo foi processado com muito cuidado".
Fonte: Correio do Povo
