AO VIVO

Rádio Vitório FM - Transmissão ao vivo

Sua rádio de todos os momentos
Por: 
TNH1

Suspeita de furtar laboratório na Unicamp tem empresa que produz vírus transgênicos

A cientista Soledad Palameta Miller, que foi presa sob suspeita de furtar amostras de material biológico na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), possui uma empresa com capacidade de produzir vírus transgênicos.

Docente da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), ela e seu marido Michael Edward Miller eram sócios na startup Agrotrix, egressa de um programa de incubação da própria universidade e instalada num parque tecnológico no campus. O foco da companhia fundada em maio de 2025 era o uso de técnicas de microbiologia para melhorar produção agropecuária.

"Envie-nos seu transgene que produzimos seu vírus!", anunciava o casal em postagens da empresa em redes sociais, oferecendo serviços tanto a produtores quanto a outros pesquisadores. Vírus transgênicos (que possuem pedaços de DNA ou RNA de outros organismos) têm sido usados em abordagens modernas de pesquisa médica e veterinária para tratar alguns tipos de doença. Esse tipo de pesquisa é promissor em muitos casos, mas precisa ser realizado em condições de segurança adequadas.

Em postagens nas redes sociais, a empresa descreve algumas de suas atividades com vírus, sem entrar em grande detalhe. Uma das linhas de trabalho da startup era a de tratamentos por "coinfecção viral", estimulando a competição entre diferentes tipos de vírus dentro de um organismo para reduzir a carga dos patógenos mais nocivos. O site da empresa, onde poderia haver mais informações, está desativado, mas a empresa mantém contas nas redes Linkedin e Instagram.

"Quando múltiplos vírus coabitam um hospedeiro, eles competem pelos mesmos recursos celulares e por receptores de superfície para entrada. Isso pode resultar em exclusão competitiva, onde um vírus supera o outro, ou coexistência, moldando a evolução viral, a gravidade da doença e eficácia de tratamentos", escreveu o pesquisador em postagem descrevendo seus serviços.

Outro serviço que a Agrotrix oferecia era o de melhoria da qualidade da água potável para aprimorar a fauna intestinal de porcos.

Não está claro se o caso envolvendo o suposto furto de material tem relação com a empresa do casal de cientistas. A Unicamp não informou quais patógenos teriam sido supostamente movimentados pela pesquisadora, mas o currículo da cientista de 35 anos indica que ela tinha experiência em trabalhar com uma variedade bastante grande de microorganismos, incluindo zika, vírus sincicial respiratório, sars-cov-2 e, particularmente, vírus de gripe, que infectam também aves e suínos.

Uma reportagem do G1 em Campinas apurou que as variantes movimentadas no laboratório eram vírus H1N1 e H3N2, causadores da gripe tipo A, capazes de infectar tanto humanos quanto alguns outros mamíferos e aves. Essas duas linhagens de vírus são citadas por Michael em seu currículo no Linkedin como sua especialidade de bancada como cientista trabalhando em instalações de segurança biológica elevada.

Prisão e investigação

Soledad foi presa na segunda-feira, dez dias após pesquisadores da Unicamp terem notado a ausência das amostras de patógenos no IB e de a Universidade ter acionado a Polícia Federal e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão contra ela e contra o marido. Ela foi solta no dia seguinte por ordem judicial.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) ficou encarregado de analisar as amostras virais violadas, mas ainda não divulgou o resultado oficialmente.

Os patógenos que foram movimentados estavam armazenados no Instituto de Biologia (IB), próximo à FEA no campuas da Unicamp, em uma instalação de nível de segurança NB3, a segunda categoria mais rígida de isolamento para evitar contaminações.

Segundo a PF, Soledad teria subtraído o material do IB, que não é a sua unidade, e levado para freezers destinados a trabalhos de colegas seus na FEA. A polícia não esclareceu como foi feito o transporte do material e se houve risco de exposição.

"A prisão ocorreu no âmbito de inquérito policial instaurado após comunicação da própria instituição sobre o desaparecimento do material", disse a polícia em comunicado breve. "Foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão."

Michael Edward Miller também é alvo da investigação mas não chegou a ser preso. Nem policiais nem a universidade informaram qual acreditam ter sido a motivação dos suspeitos para manipular o material. O GLOBO tenta contato com Pedro Russo, advogado de defesa de Soledad, e aguarda resposta.

Nesta tarde, a Unicamp disse que não pretende dar mais detalhes sobre o caso até a conclusão das investigações.

"A Universidade esclarece que vem tomando todas as medidas cabíveis, colaborando integralmente com as autoridades competentes" afirmou a reitoria da Unicamp, em nota. "Os possíveis envolvidos na ocorrência serão responsabilizados, conforme previsto na legislação vigente."

O caso, que só ganhou publicidade após a professora ser detida, já tem se desenrolado desde fevereiro. As amostras em questão tinham sumido do IB no dia 13 do mês passado, e só foram encontradas pela PF 10 dias depois na FEA. A prisão efetuada em flagrante, ocorreu quase um mês depois.

Currículo recheado

Soledad é uma cientista relativamente jovem, mas com ampla experiência em trabalhar com vírus. Segundo o currículo que a professora mantinha na plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ela tinha doutorado em ciências farmacêuticas e e já tinha atuado nas áreas de "engenharia de vetores virais, imunomodulação e anticorpos monoclonais".

Argentina, a docente se formou na Universidade de Rosario como biotecnologista, e já tinha trabalhado no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), também em Campinas, que possui alguns laboratórios de microbiologia mais modernos do país. Na FEA/Unicamp, ela coordenava o Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos.

Michael Miller tem um currículo mais modesto, formado em medicina veterinária pela Unip com mestrado em genética e biologia molecular pela Unicamp. Está cursando doutorado na mesma área na universidade. A polícia não informou sua nacionalidade. O pesquisador estudou nos EUA antes da graduação, mas se declarou cidadão brasileiro em seu currículo no CNPq.

contato@vitoriofm.com.br
Vitório FM 104,9 - Todos os direitos reservados
linkedin facebook pinterest youtube rss twitter instagram facebook-blank rss-blank linkedin-blank pinterest youtube twitter instagram