
A imagem clássica da depressão associada à prostração em um quarto escuro ou da ansiedade manifestada apenas em ataques de pânico está sendo ressignificada. Na prática clínica, a realidade é muito mais sutil e, por isso, perigosa. Muitos indivíduos mantêm rotinas produtivas, mas carregam um sofrimento invisível que se manifesta em padrões de pensamento e pequenas alterações comportamentais que passam despercebidas até pelo círculo social mais íntimo.
Identificar esses “sinais de baixa intensidade” é fundamental para uma intervenção precoce. Como explica a psicóloga Cibele Santos, o corpo e a mente dão avisos muito antes de um colapso total ocorrer. O desafio é aprender a ouvir esses alertas em um mundo que nos pressiona a estar constantemente bem.

Um dos indicadores mais sofisticados de que a saúde mental está sob pressão é a perda da fluidez na vida. De acordo com Cibele Santos, a pessoa para de “viver” e passa a “operar”. Esse estado de sobrevivência se manifesta em detalhes do cotidiano que, isoladamente, parecem banais, mas em conjunto formam um quadro de alerta.
“Os primeiros sinais geralmente aparecem na perda da espontaneidade. A pessoa começa a operar no ‘automático’. Outros sinais incluem alterações discretas no sono e apetite: não necessariamente insônia, mas um sono que não restaura, ou comer sem sentir o sabor”, detalha a psicóloga.
Além disso, a especialista aponta para a procrastinação emocional. Diferente da preguiça, essa inércia surge do medo e do peso excessivo que tarefas simples ganham na mente do indivíduo. A irritabilidade também muda de escala: pequenas interrupções ou frustrações que antes eram manejáveis passam a gerar reações desproporcionais de raiva ou desânimo.

A autocrítica é uma ferramenta útil para o crescimento, mas na ansiedade e na depressão, ela se transforma em ruminação — um ciclo repetitivo de pensamentos depreciativos que não levam a lugar algum. Cibele destaca que é necessário observar a qualidade da “voz interna”.
“A atenção profissional é necessária quando o pensamento deixa de ser uma busca por solução e passa a ser um ciclo de punição que gera paralisia. Se a ‘voz interna’ é predominantemente depreciativa e consome energia vital, impedindo o foco no trabalho ou no lazer, é hora de intervir”, alerta.
Esse desgaste cognitivo é intensificado pelo que a psicóloga chama de “falta de presença”. Para quem sofre, o presente é um território vazio:

Outro sinal silencioso, porém devastador, é a culpa constante. Ao contrário da culpa funcional, que nos motiva a corrigir um erro real, a culpa nos quadros de transtorno mental é difusa e generalizada. Segundo Cibele, o indivíduo sente que é um fardo para os outros simplesmente por existir ou por não conseguir entregar a produtividade que a sociedade exige.
Essa sensação está intimamente ligada ao padrão de “nunca ser suficiente”, que alimenta fenômenos como a Síndrome do Impostor e o Burnout.
“Esse padrão cria um abismo entre quem a pessoa é e quem ela acha que deveria ser. A longo prazo, isso destrói a autoestima e gera um estado de alerta constante, pois a pessoa sente que precisa ‘provar’ seu valor o tempo todo”, explica a psicóloga.
É natural sentir tristeza diante de perdas ou ansiedade antes de grandes eventos. No entanto, saber diferenciar a reação natural do transtorno clínico é vital para não negligenciar o problema. Cibele Santos sugere o uso do binômio intensidade x funcionalidade.
Em um momento difícil, como um luto ou demissão, a dor é intensa, mas o indivíduo ainda consegue experimentar breves momentos de esperança ou prazer. Já no transtorno, o sofrimento é persistente — geralmente ultrapassando o período de duas semanas — e começa a corroer áreas básicas da vida. “O sentimento não ‘vai embora’ mesmo quando as coisas externas melhoram”, pontua a especialista. Quando o isolamento social se torna a regra e o descuido com a higiene pessoal ou o trabalho surge, a ajuda profissional deixa de ser uma opção e passa a ser uma urgência.
Ao perceber esses sinais, o primeiro passo é buscar a regulação neurobiológica básica. A psicóloga recomenda a “higiene de rotina”, focada em sono e alimentação, e uma pausa digital para reduzir o bombardeio de estímulos e comparações sociais. Outra ferramenta poderosa é a escrita terapêutica, que ajuda a reduzir a ruminação da mente e colocá-la no papel.
Contudo, o silêncio é o maior aliado do transtorno. Cibele reforça que compartilhar a dor com alguém de confiança é o início da quebra do ciclo, mas ressalta que a terapia é o ambiente seguro para a recuperação da autonomia.
“A ajuda profissional é indispensável quando há perda de autonomia. Se você não consegue mais controlar suas reações ou se há desesperança profunda, busque apoio. Não precisamos esperar o ‘fundo do poço’ para buscar a escada”, finaliza Cibele Santos.
Dicas baseadas nas orientações da psicóloga Cibele Santos para quem começou a notar os “alertas silenciosos”.

Muitas vezes, percebemos os sinais em amigos ou familiares antes deles mesmos. Veja como agir sem ser invasivo.
