
China e Índia, respectivamente o primeiro e o terceiro maiores emissores globais, adotaram na COP30 uma estratégia de discrição calculada, destoando do protagonismo assumido por outros países.
A ausência de ministros de alto escalão na abertura e intervenções curtas e pouco assertivas reforçaram a percepção de que ambos os países optaram por um perfil comedido, reduzindo exposição pública e controlando riscos diplomáticos.
No caso da China, quatro fatores explicam essa postura, incluindo a pressão crescente para apresentar metas mais ambiciosas alinhadas a 1,5 °C e um contexto econômico sensível marcado por tensões comerciais. Soma-se a isso a tradição chinesa de negociar apenas na reta final das conferências.
Por fim, a cautela em assumir compromissos antes de conhecer os detalhes do novo objetivo global de financiamento climático (NCQG) faz com que o low profile funcione como um amortecedor diplomático.
A Índia segue lógica semelhante. Diante de um texto preliminar que pressiona por eliminação dos combustíveis fósseis — tema no qual o país é fortemente dependente do carvão —, Nova Délhi preferiu reduzir a visibilidade para não virar alvo.
O governo Modi também atravessa um ciclo político delicado e evita posições que possam gerar custos internos, além de manter alinhamento tácito à estratégia chinesa em temas como metano, responsabilidade histórica e diferenciação entre países.
Essa postura silenciosa produz efeitos imediatos sobre a dinâmica da COP30: enfraquece o peso tradicional do G77+China, amplia o espaço de atuação de Brasil e União Europeia, mas dificulta o avanço concreto sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. Também alimenta a percepção de que as duas potências estão comprando tempo até a definição do NCQG, evitando compromissos antes de uma maior clareza sobre financiamento.
Ainda assim, a precisão estratégica de China e Índia sugere que o cenário pode mudar completamente na reta final. Ambos têm histórico de entrar tardiamente nas negociações com propostas consolidadas e prontas para trocas políticas decisivas.
A baixa visibilidade na primeira semana não indica, necessariamente, uma ausência de poder, mas uma escolha tática para concentrar influência nos momentos em que o texto final é, de fato, decidido.
A discrição adotada por China e Índia não significa distanciamento, mas uma estratégia cuidadosamente calibrada. O ponto crítico será entender se, ao entrarem em cena, essas potências irão impulsionar o consenso ou simplesmente impedir avanços. O desfecho do texto final da COP30 — e até mesmo o caminho das próximas NDCs — dependerá das decisões que ainda tomarão nos bastidores de Belém.
