
Os números divulgados pela pesquisa da AtlasIntel sobre a rejeição de Lula e Flávio Bolsonaro na quinta-feira, dia 2, devem ter caído como uma bomba nos redutos governistas. A cerca de seis meses das eleições, o presidente amarga o impressionante índice de 50,6%, enquanto Flávio Bolsonaro ostenta 24%, bem menos da metade.
Em nenhuma das seis últimas eleições houve tanta diferença entre os dois primeiros concorrentes. Os casos mais gritantes foram em 2022, quando Bolsonaro atingiu 54% e Lula chegava aos 39%. Com números parecidos, em 2018, Bolsonaro bateu nos 50% e Lula foi a 35%. O pleito de 2018 pode ser considerado anômalo, já que Lula não pôde concorrer por estar preso. Fernando Haddad não conseguiu substituí-lo à altura.
Nas outras eleições, as diferenças foram menores. Em 2002, Lula 40% e Serra 25%. Em 2006, Lula 35% e Alckmin 25%. Em 2010, Dilma 25% e Serra 30%. Em 2014, Dilma 35% e Aécio 25%. São índices elevados, mas nada se compara com a diferença atual. Dados de pesquisas realizadas em períodos semelhantes mostram que esse padrão se repete ao longo do tempo.
Essa retrospectiva pode dar a Lula uma tênue esperança, já que na maioria dos casos os candidatos mais rejeitados conseguiram vestir a faixa presidencial. Foi assim com o petista em 2002, com ele mais uma vez em 2006, com Dilma em 2014 e com Bolsonaro em 2018. Foram vencedores com rejeição menor apenas Dilma em 2010 e Lula em 2022.
Embora a rejeição dificulte o crescimento do candidato, os dados pretéritos mostram que esse fator não chega a ser impeditivo para que vença as eleições.
O ponto a ser destacado na pesquisa atual é que muitos imaginavam que, se por um lado Flávio pudesse herdar boa parte do eleitorado do pai, por outro teria também que carregar o ônus da rejeição. Para surpresa desses observadores, boa parte do capital político do ex-presidente foi transferida, mas as barreiras impostas a Jair Bolsonaro não se deslocaram na mesma proporção para o filho.
Inúmeras vezes a história eleitoral mostrou que cada eleição é uma nova disputa, dentro de um cenário distinto, com fatores que movimentam de maneira diversa o tabuleiro político. Até o final do ano passado, comparado com Lula, Flávio era desconhecido para a maioria da população brasileira. Hoje, em poucos meses, empata com Lula em eventual disputa de segundo turno e, em alguns levantamentos, até ultrapassa.
Por isso, a beleza da democracia. Proporciona a alternância de poder e permite que o eleitor substitua quem não esteja agradando e mantenha quem cumpra com seu dever de bem governar. Como disse Churchill: “Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as demais que já foram experimentadas.”
Caberá ao eleitor observar com atenção. Se essa rejeição dos dois candidatos não mudar de patamar nos próximos meses, é quase certo que a tendência de crescimento de Flávio continue e que a estagnação e até o decréscimo de Lula prevaleçam. Com o início da campanha, as acusações de parte a parte, as denúncias de corrupção e as comparações entre o governo atual e seu antecessor ganharão mais peso na equação do pleito.
Quem tiver melhores propostas e menos telhado de vidro chegará mais robusto às urnas. As questões econômicas e a instabilidade internacional, com os conflitos que insistem em permanecer, poderão também ocupar papel preponderante na escolha de quem governará o país pelos próximos quatro anos.
Se Lula andava de salto alto, livre, leve e solto, com a certeza de que Flávio seria o competidor mais frágil e que suas ações eleitoreiras garantiriam a vitória, deve ter percebido que a situação se alterou. Hoje, o presidente é que precisa encontrar meios para neutralizar o crescimento do adversário e fazer das tripas coração para estancar essa indesejável rejeição.
Para quem gosta de uma boa briga, emoção é o que não vai faltar nas próximas semanas. Os ataques já começaram. Flávio encontrou um apelido que tenta atingir Lula em seu ponto mais vulnerável. Disse que o presidente parece um Opala velho. Lula não deve deixar essa provocação sem resposta.
