
Ratinho Júnior resolveu que o melhor é cuidar do próprio quintal. A nota oficial, divulgada nesta segunda-feira (23) após uma “profunda reflexão familiar”, tenta vender a desistência da corrida presidencial como um compromisso com os paranaenses e com o legado do pai, o apresentador.
Mas o que Brasília leu nas entrelinhas foi um movimento de sobrevivência. Dito isto, a notícia é boa para os dois lados da polarização.
Para o governo Lula, a saída de Ratinho é um alívio. O governador era o único nome de centro-direita capaz de dialogar sem carregar o piano do bolsonarismo radical. Sem ele, Lula volta a ter o cenário dos sonhos: um adversário com rejeição na medida, fácil de enquadrar no discurso da “defesa da democracia contra o atraso”.
Já para Flávio Bolsonaro, o ganho é estratégico. O “01” quer ser o herdeiro único do espólio do pai. Ratinho Jr. ocupava justamente o espaço da direita civilizada, a mesma imagem que o marketing do PL tenta colar em Flávio. Com o concorrente fora do tabuleiro, Flávio vira o dono da bola nesse nicho de eleitores.
Mas há um tempero extra nessa história: a aliança exótica no Paraná. Flávio já declarou apoio a Sérgio Moro – o mesmo Moro que o capitão um dia chamou de traidor – após oferecer o mundo.para Ratinho Jr e receber uma negativa. Na política de conveniência, a memória é curta e o apetite é longo. Ao ver o filho do ex-presidente se unir ao ex-juiz para “furar o olho” de seu grupo político, Ratinho não teve dúvida: recuou para não entregar o estado de bandeja.
No fim, Gilberto Kassab fica com Ronaldo Caiado, o “xerifão” de Goiás que tem um estilo muito mais intenso do que o centro aguenta. Ratinho Júnior volta para as rádios e para a TV do pai.
Ele sai da linha de frente de 2026, mas deixa um Brasil entregue à briga que Lula e Flávio adoram: o confronto direto, sem intermediários e sem centro.
Como na televisão, o silêncio de quem sai às vezes dá mais audiência do que o discurso de quem fica. Lula e Flávio agradecem.
