
Cientistas brasileiros identificaram a presença do papilomavírus humano tipo 16 (HPV16) em múmias congeladas. Os resultados vieram após uma investigação sobre dados genômicos dos fósseis.
A descoberta liderada por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) foi publicada em versão pré-print no bioRxiv, em meados de dezembro.
O HPV16 é um subtipo de alto risco, transmitido sexualmente — seja pelo contato pele a pele ou através da mucosa. Quando entra no organismo, o vírus tem grande capacidade de evoluir para câncer.
A presença do vírus foi detectada em Ötzi, o Homem de Gelo, e no Homem de Ust’-Ishim. Eles viveram na Terra há cerca de 5,3 mil anos e 45 mil anos, respectivamente. A descoberta pode mudar o que a ciência sabe sobre a origem do vírus.
“Os resultados indicam que o HPV16 está associado a humanos anatomicamente modernos há muito tempo, provavelmente bem antes das principais divisões populacionais fora da África — ou seja, há 50 a 60 mil anos”, explica um dos autores do artigo, Marcelo Briones, em entrevista ao portal Live Science.
Os pesquisadores da Unifesp analisaram mais de 5,7 bilhões de leituras de sequenciamento genético coletados nos fósseis com técnicas avançadas. Após testar a presença de vários tipos de HPV, eles constataram que a cepa HPV16 foi a mais consistente.
A reconstrução do genoma viral do Ötzi mostrou que o vírus encontrado nele era mais semelhante ao subtipo do HPV16A1, o mais predominante na Europa – quando encontrada, a múmia estava congelada nos Alpes, localizados na Europa Central. Já a linhagem identificada no Homem de Ust’-Ishim, achado na região asiática da Sibéria, tinha mais ligação com o subtipo HPV16A4, comumente associado a euroasiáticos antigos.
Investigações posteriores também confirmaram que a contaminação por HPV já estava preservada nos restos mortais há muito tempo.
Segundo os pesquisadores, os resultados ainda não mostram que o vírus já causava doenças desde antigamente, mas ajudam a montar a linha do tempo na relação entre o HPV e os humanos, visto que outras teorias sugeriam que ele foi introduzido entre nós através do cruzamento entre Homo sapiens e neandertais.
“A nossa descoberta reforça a ideia de que os papilomavírus humanos oncogênicos não são patógenos recentes, mas sim companheiros de longa data de seus hospedeiros, evoluindo juntamente com primatas e humanos ao longo de extensas escalas de tempo evolutivas”, finaliza Briones.
