
A chamada “prévia da inflação” no Brasil, divulgada nesta quinta-feira (26/3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), veio acima do esperado pelo mercado, indicando um cenário ainda desafiador para os próximos meses – que deve ser agravado pelos efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços do petróleo.
A avaliação é de economistas e analistas do mercado consultados nesta manhã pela reportagem do Metrópoles, pouco depois do anúncio dos resultados do IPCA-15.
Em março, o índice ficou em 0,44%, o que representou uma queda de 0,4 ponto percentual em relação ao índice registrado em fevereiro (0,84%). A projeção do mercado, no entanto, era bem menor, de 0,29%.
No período de 12 meses, o IPCA-15 acumula alta de 3,9%, abaixo dos 4,1% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em março do ano passado, o indicador foi de 0,64%.
Segundo o IBGE, todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados tiveram variação positiva em março, com destaque para o grupo de alimentação e bebidas, com a maior variação (0,88%), seguido por despesas pessoais (0,82%).
Segundo Claudia Moreno, economista do C6 Bank, com a continuidade do conflito no Oriente Médio, “a tendência é que os preços dos alimentos continuem pressionados daqui para frente, refletindo tanto o aumento dos fertilizantes – que pode afetar os produtos in natura já no curto prazo – quanto a alta do diesel, com impacto nos custos de transporte”.
“Olhando à frente, acreditamos que as tensões no Oriente Médio devem gerar pelo menos algum impacto persistente nos preços do petróleo e, consequentemente, na inflação. Além disso, o mercado de trabalho aquecido e a expectativa de uma leve desvalorização do real serão fatores adicionais de pressão sobre os preços no segundo semestre. Nossa projeção hoje é de um IPCA a 4,5% no fim do ano”, afirma.
Para Moreno, as últimas comunicações do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) “sugerem que o ciclo de cortes da taxa básica de juros, a Selic, continuará, mas o ritmo dependerá da evolução do conflito no Oriente Médio”.
André Valério, economista sênior do Banco Inter, observa que o dado do IPCA-15 em março reforça a visão de que a piora recente da inflação foi devido a fatores sazonais. “Vemos os principais indicadores retornarem à tendência observada pré-dezembro de 2025, reforçando que o processo de desinflação persiste. Entretanto, o dado de hoje ainda não reflete totalmente a piora no cenário internacional devido ao conflito no Irã”, avalia.
“Os combustíveis recuaram 0,03% em março, mas no IPCA cheio devemos observar uma pressão inflacionária mais significativa vindo da gasolina, dado que o barril de petróleo aumentou mais de 40% desde o início do conflito”, diz Valério.
Além disso, segundo o economista, “a interrupção no fluxo do Estreito de Ormuz tende a pressionar a inflação de alimentos, que em março acelerou significativamente”.
“De toda forma, os itens cujos preços tendem a acelerar devido ao conflito são aqueles mais voláteis, com os quais o BC não deveria se preocupar inicialmente. Vemos o processo inflacionário caminhando em direção à meta e consistente com o início do ciclo de flexibilização da política monetária. Esperamos que o Copom continue cortando a Selic, com a magnitude dependendo da evolução do conflito.”
Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, “o dado veio bem acima das projeções do mercado, provocando, em um primeiro momento, certo desconforto em relação à perspectiva para a inflação ao longo do ano”.
“A ausência de evidências mais nítidas acerca do possível impacto da guerra sobre os preços domésticos e mesmo eventuais repasses do nível de crescimento ainda resiliente podem ser considerados argumentos fortes o suficiente para sustentar um novo corte de juros de 25 pontos-base (0,25 ponto percentual)”, explica Pizzani.
Para o economista, “o ambiente de cautela e constante monitoramento da evolução dos preços, com foco cada vez maior nos custos ao longo da cadeia dos produtores, deve ser mantido até que sejam dissipadas por completo quaisquer dúvidas acerca do real comportamento da inflação no decorrer dos próximos meses”.
De acordo com Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, o resultado do IPCA-15 “mostra que a inflação segue em processo de moderação, mas de forma irregular e ainda sujeita a choques relevantes”. “O principal destaque foi o grupo de alimentação e bebidas, com alta de 0,88% e impacto significativo no índice, refletindo aumentos expressivos em itens básicos do dia a dia, como feijão, ovos, leite e carnes. Esse movimento reforça a percepção de inflação mais sensível para as famílias e mantém a pressão sobre o custo de vida”, afirma.
Segundo Spyer, “o aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, especialmente envolvendo o Irã, mantém o petróleo em patamar elevado e aumenta a incerteza sobre o comportamento futuro dos preços de energia, o que pode voltar a pressionar a inflação nos próximos meses”. “Do ponto de vista da política monetária, o dado de hoje reforça uma mensagem de cautela”, completa.
Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos, aponta que “a surpresa altista foi majoritariamente explicada por passagem aérea, mas o restante do índice também apresentou um desempenho qualitativo um pouco pior que o esperado, com destaque para carne bovina”. “Apesar de sinais de arrefecimento à frente na proteína, o resultado deixa um viés altista para a inflação no ano e mantém serviços pressionados”, pondera.
“O IPCA-15 contrata mais um mês de IPCA fechado elevado, devido aos repetíveis. Existem pontos positivos na leitura, como condomínio e aluguel com baixa variação, mas, em relação à nossa projeção, vemos piora na margem”, conclui Pestana.
O economista Maykon Douglas, por sua vez, entende que março “foi mais um mês de forte surpresa altista no IPCA-15, concentrada no preço das passagens aéreas, que apresenta um comportamento bastante volátil há algum tempo”. “No entanto, os núcleos, em geral, vieram conforme as expectativas do mercado e mantêm uma desaceleração lenta, em patamares bem acima da meta”, diz.
“O cenário para o curto prazo é ruim. A inflação dos combustíveis ainda não sentiu o impacto da guerra no Oriente Médio, que deve ser forte, dada a enorme incerteza quanto à duração do conflito e os aumentos nos postos mesmo sem reajustes oficiais pela Petrobras. Além disso, com o aperto no mercado de trabalho, a inflação sensível à demanda deve permanecer acima da meta.”
