
As populações indígena e quilombola são mais jovens que o conjunto dos brasileiros, segundo dados do Censo 2022 divulgados nesta sexta-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).
De acordo com os dados
Além disso, a proporção de idosos em relação ao total da população – o chamado índice de envelhecimento – é menor entre os indígenas e quilombolas na comparação com o total dos brasileiros:
O Brasil tem 1,7 milhão de indígenas e 1,3 milhão de quilombolas, que representam respectivamente representam 0,8% e 0,65% da população total (203 milhões).
Uma das possíveis razões para que as populações indígenas e quilombolas sejam mais jovens é a percepção da relevância de ter filhos para perpetuar as comunidades, segundo Marta Antunes, responsável pelo projeto de Povos e Comunidades Tradicionais no IBGE.
"A principal razão tem a ver com a dimensão cultural da relação com a reprodução física como parte da reprodução social desses povos indígenas. O entendimento da importância de ter filhos, a importância dos mais jovens nessa reposição da população e da transmissão do conhecimento."
Segundo Antunes, dados de censos anteriores indicam que a fecunidade (quantidade de filhos por mulher) é historicamente mais elevada entre essas populações – os dados desse indicador levantados no Censo de 2022 ainda não foram divulgados.
“A gente ainda não tem esse dado [de fecundidade], mas pela análise das pirâmides etárias e comparando os dados com 2010, a gente percebe que há fecundidades mais elevadas, sim, ao longo dos últimos 15 anos, 20 anos, 30 anos. Então continua com uma fecundidade [na população indígena] mais alta do que a da população brasileira, principalmente dentro das terras indígenas (TIs)”, diz a pesquisadora.
Indígenas e quilombolas são ainda mais jovens dentro dos territórios demarcados
Segundo o Censo 2022, os indígenas e quilombolas são ainda mais jovens dentro dos próprios territórios: nas Terras Indígenas, metade tem até 19 anos (ante 30 fora delas); nos territórios quilombolas demarcados, metade tem até 28 anos (ante 31 fora).
De acordo com o IBGE, a maioria da população indígena (63%) vive fora das 573 terras oficialmente demarcadas pela Funai. Entre os quilombolas, quase 90% não mora nas 494 áreas oficialmente delimitadas.
Para Marta Antunes, os territórios demarcados garantem uma segurança maior para esses grupos sociais, o que facilita ter filhos.
Essa segurança também faz com que, dentro dos territórios, não ocorra a redução na proporção de homens em relação a mulheres que acontece no conjunto da população a partir, principalmente dos 19 anos, e que decorre da maior exposição deles a fatores externos, como violência.

Criança sendo batizada na capela do Vão de Almas, no Quilombo Kalunga, em foto de 2019. — Foto: Fábio Tito/G1
Apesar de as mulheres serem maioria entre indígenas de forma geral, dentro dos territórios elas são minoria.
Uma das possíveis razões para isso é a mortalidade materna, segundo Antunes. Pela maior segurança dentro dos territórios demarcados e pela maior facilidade em se planejar a gravidez, as mulheres indígenas podem ter mais filhos por mais tempo e por causa disso, as gestações se tornam mais arriscadas.
Antunes diz ainda que dentro das terras, o acesso à saúde de maior complexidade, a retirada de pacientes em situações de emergência pode ser mais difícil, inclusive por causa de questões logísticas envolvidas no acesso às terras indígenas.
Outra possível razão para haver menos mulheres dentro dos territórios é a migração das mais jovens do grupo para fora das terras indígenas.
“Ainda não temos os dados de migração para dizer quanto há de migração para fora dos territórios. [Os dados apontam] para a possibilidade de haver alguma migração, sim, mas isso precisa ser verificado. São múltiplas as razões que levam qualquer pessoa a migrar. Tem a ver com oportunidades, acesso a serviços, acesso à educação. Isso chama muito o jovem adulto indígena”, diz Antunes.
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Em 2022, o número de indígenas foi 89% maior que o observado no Censo de 2010. Houve mudança no mapeamento e na metodologia da pesquisa entre as duas pesquisas, o que permitiu identificar mais pessoas.
Os povos indígenas passaram a ser mapeados pelo IBGE em 1991, com base na autodeclaração no quesito cor ou raça.
No entanto, a partir do Censo de 2022, o instituto ampliou a metodologia, incluindo também o quesito se considera indígena para contagem da população. Houve também participação das próprias lideranças das comunidades no processo de coleta de dados e a inclusão de outras localidades indígenas além das terras oficialmente delimitadas.
Segundo Marta Antunes, entretanto, houve também um crescimento real da população, embora o envelhecimento não ocorra no mesmo ritmo do conjunto da população.
Para Antunes, a estrutura de atendimento à saúde melhor faz com que haja uma população mais idosa fora do que dentro das TIs.Outras divulgações do Censo 2022
As informações do Censo 2022 começaram a ser divulgadas em junho de 2023. Desde então, foi possível saber que:
