
Para você que está lendo este texto, saiba que isso só é possível devido a estruturas de formato cilíndrico e arredondado localizadas no fundo do mar. Muita gente nem imagina, mas grande parte do funcionamento da internet está ligado a cabos submarinos. Neles, há feixes de fibras ópticas que transportam a maioria do tráfego global de dados diariamente.
Na prática, os cabos são responsáveis por interligar a comunicação digital entre todos os países. Por serem considerados uma infraestrutura crítica, os fios são feitos de materiais fortificados para diminuir o risco de danos.
No caso do Brasil, mais de 95% do tráfego internacional de dados, incluindo internet, transações bancárias, comunicações governamentais, sistemas de saúde, serviços em nuvem e plataformas corporativas, passa pelos cabos submarinos.
“Por isso, essa infraestrutura é tratada no mesmo nível de criticidade que energia elétrica, telecomunicações, água e transporte”, explica o especialista em crimes cibernéticos Rodrigo Fragola, da empresa de cibersegurança OGASEC Cyber Security, em Brasília.
De acordo com Fragola, em comparação aos satélites — que também fornecem acesso à internet —, os cabos têm mais capacidade de volume de tráfego, levam menos tempo para transportar dados de um lado a outro e custam menos.
Caso sejam danificados, a falha pode causar prejuízos consideráveis em importantes setores, incluindo o financeiro, de saúde e o estatal. “Os setores mais afetados por uma falha em cabos submarinos são aqueles que dependem intensamente de conectividade contínua e confiável de acessos internacionais. O redirecionamento do tráfego em caso de rompimento dos cabos causa lentidão da comunicação”, aponta o especialista.
Você já sabe a importância dos cabos submarinos e que eles podem ser danificados. Mas afinal, quando há falhas, como consertá-los? Segundo o oceanógrafo João Luiz Baptista de Carvalho, qualquer correção é realizada através de navios especializados e altamente tecnológicos.
“Ao localizar o dano, são utilizados veículos operados remotamente (ROVs) em águas profundas (ou mergulhadores em águas rasas) para içar o cabo até o convés. A seção danificada é eliminada e as fibras óticas, os elementos estruturais e o revestimento do cabo são emendados. Em seguida, o cabo restaurado é reposicionado e enterrado no fundo do mar”, explica o membro da Associação Brasileira de Oceanografia (Aoceano).
Se o dano não for tão grande, Fragola diz que o tráfego de dados pode ser redirecionado automaticamente para outros cabos. No entanto, mesmo nesses casos, é comum a internet ficar mais lenta e haver instabilidade em serviços críticos.

Mesmo estando bem identificados em cartas náuticas, estragos em cabos submarinos costumam ocorrer devido à atividades humanas, como pesca de arrasto e ancoragem de navios. Fenômenos naturais como terremotos, tsunamis e deslizamentos submarinos também podem afetar as estruturas.
“Quanto a mordidas de animais, eu desconheço ocorrências, mas a priori poderia acontecer sim. A sabotagem também é uma causa de danos aos cabos submarinos”, diz Carvalho.
Por serem tão importantes, os cabos submarinos acabaram virando uma peça-chave no quebra-cabeça geopolítico. Cada vez mais as suspeitas de sabotagem intencional para danificá-los crescem no mundo. Por exemplo, os localizados no Mar Báltico e Mar Vermelho têm sofrido com cortes. A desconfiança de que eles poderiam ser propositais aumenta as tensões entre os países.
No entanto, estragos intencionais nas estruturas podem ser punidos, de acordo com a lei. Segundo o advogado Victor Minervino Quintiere, há dois tratados internacionais em vigor, além de outros estatutos para tratar a questão: a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, criada em 1982, e a Convenção para a Proteção dos Cabos Submarinos, de 1884.
“A danificação de cabos submarinos em águas internacionais pode configurar ilícito internacional e crime, dependendo da legislação interna do Estado envolvido. A responsabilização pode ocorrer de forma individual, estatal e civil internacional”, afirma Quintiere, professor de direito do Centro Universitário de Brasília (Ceub).
Por outro lado, o especialista aponta que não há um tribunal internacional específico para julgar disputas relacionadas a cabos submarinos. “Questões que envolvem cabos submarinos são tratadas sob o âmbito do direito internacional geral”, finaliza Quintiere.
