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Derretimento das geleiras põe em risco reservatórios ocultos de água do mundo

As geleiras, que constituem os reservatórios ocultos de água do mundo, são uma fonte de vida para bilhões de pessoas. O derretimento sazonal das montanhas e das geleiras alimenta alguns dos rios mais importantes do planeta, como o Indo, o Nilo, o Ganges e o Colorado, que, juntamente com outros rios de montanha, fornecem irrigação para as lavouras, abastecem com água potável quase 2 bilhões de pessoas e impulsionam a produção de energia elétrica.

À medida que as geleiras encolhem e desaparecem, as mudanças nos fluxos de água representam um risco cada vez maior para a segurança alimentar, a segurança do abastecimento de água e a segurança dos meios de subsistência de bilhões de pessoas.

No curto prazo, o derretimento acelerado pode desencadear perigos ambientais: inundações repentinas, formação de lagos na base das geleiras, avalanches e deslizamentos de terra.

No longo prazo, as geleiras, como fontes de água, simplesmente desaparecerão.

Até o final do século, a maioria das geleiras fornecerá muito menos água do que hoje, o que prejudicará tanto a agricultura dos povos das montanhas quanto os grandes celeiros das áreas de terras baixas situadas a jusante.

As montanhas cobrem mais de um quarto da superfície terrestre do planeta e abrigam 1,2 bilhão de pessoas, mas essas regiões estão se aquecendo a uma velocidade superior à média global.

As comunidades de montanha são especialmente vulneráveis à crescente variabilidade climática e à diminuição da disponibilidade sazonal de água para a agricultura e a irrigação. Como frequentemente não há uma alternativa viável de abastecimento de água, a perda da produção agrícola pode forçar deslocamentos associados ao clima e aumentar a instabilidade.

Em cinco dos últimos seis anos, foram registrados recordes históricos na velocidade de retração das geleiras, e as consequências já estão sendo sentidas.

Temporadas de neve mais curtas

Comunidades em todo o mundo, dos Andes ao Himalaia, estão vivenciando temporadas de neve mais curtas, escoamentos irregulares e a perda de fontes seguras de água. No Peru, o recuo das geleiras reduziu drasticamente a produtividade das lavouras. No Paquistão, a diminuição do derretimento ameaça os ciclos sazonais de plantio.

Muitas geleiras já atingiram seu pico hídrico — isto é, o ponto máximo de escoamento da água do degelo, a partir do qual a vazão passa a diminuir gradualmente — ou deverão alcançá-lo nas próximas duas ou três décadas.

Isso significa que, à medida que o crescimento populacional aumente ainda mais a demanda por água, as pessoas que dependem de rios alimentados por geleiras enfrentarão escassez crescente.

Além das implicações científicas e de sobrevivência, o desaparecimento das geleiras elimina algo menos tangível, mas igualmente profundo. Para os Povos Indígenas e as comunidades de montanha da Ásia, da América Latina, da África e do Pacífico, as geleiras são sagradas.

Seu derretimento enfraquece tradições, rituais, identidades e patrimônios culturais associados às paisagens montanhosas há séculos.

Embora ainda haja tempo para reagir, as respostas globais continuam fragmentadas e insuficientes. Por esse motivo, as Nações Unidas declararam 2025 como o Ano Internacional da Conservação das Geleiras, o que constitui um lembrete claro da importância de conservar esses ecossistemas congelados para proteger o nosso futuro.

Segurança alimentar

Para garantir a segurança alimentar e do abastecimento de água, dos picos mais altos até as planícies, é urgentemente necessário um avanço em políticas, investimentos e governança.

De modo geral, é preciso reduzir as emissões de gases de efeito estufa, melhorar a gestão da água e fortalecer os sistemas de alerta precoce, a agricultura adaptativa e os sistemas agroalimentares sustentáveis.

Devemos transformar os desafios decorrentes do derretimento das geleiras em oportunidades que beneficiem todas as pessoas.

A agricultura, um dos principais usuários de água e um setor-chave para a adaptação, pode ser uma solução em si mesma se for aprimorada de forma sustentável. Algumas técnicas que as comunidades de montanha aplicam há séculos, como o cultivo em terraços, a agroecologia, a agrofloresta e a diversificação de culturas, ajudam a proteger o solo e a água, reduzem o risco de desastres e sustentam os meios de vida.

Essas iniciativas de adaptação devem ser inclusivas e valorizar os conhecimentos dos Povos Indígenas para enfrentar vulnerabilidades centrais, como a pobreza e a desigualdade de gênero.

Também precisamos mobilizar investimentos em infraestrutura hídrica e agrícola. Nesse sentido, é necessário captar mais financiamento climático para apoiar comunidades de montanha vulneráveis, que enfrentam dificuldades de acesso à capacitação, ao financiamento e à inovação.

Além disso, os governos devem harmonizar suas estratégias, políticas e planos para enfrentar esse vínculo crucial entre água, agricultura e resiliência às mudanças climáticas. Com frequência, as montanhas não são consideradas na formulação das políticas climáticas nacionais nem nos marcos globais de adaptação.

Cooperação transfronteiriça

Precisamos de políticas e parcerias para sistemas hídricos alimentados por geleiras, iniciativas de cooperação transfronteiriça e mecanismos de compartilhamento de riscos e de alerta precoce, especialmente considerando que os rios alimentados por geleiras costumam atravessar vários países.

Essas medidas incluem também a revisão das estratégias de alocação de água em toda a bacia, bem como dos planos e investimentos em infraestrutura, a fim de melhorar a eficiência do uso da água para irrigação e intensificar o monitoramento e a pesquisa sobre as geleiras.

A preparação para um mundo com menos geleiras e menor vazão de suas preciosas águas exige inovação e coordenação. No Quirguistão, a FAO ajudou especialistas a construir geleiras artificiais, ou seja, torres de gelo criadas por meio da pulverização de água de montanha, que se derretem gradualmente no verão.

Somente na região de Batken, essa iniciativa permitiu armazenar mais de 1,5 milhão de metros cúbicos de gelo, quantidade suficiente para irrigar até 1.750 hectares.

Em Ladakh (Índia), a empresa social Acres of Ice construiu reservatórios de gelo automatizados para captar água não utilizada durante o outono e o inverno e congelá-la até a primavera. Nos Andes peruanos, está em curso uma iniciativa comunitária baseada em um sistema de filtragem natural com plantas nativas para combater a degradação da qualidade da água causada pelos minerais expostos pelo recuo das geleiras.

Ainda assim, há muito a ser feito, juntos. As geleiras são importantes porque a água é importante. Se ignorarmos seu rápido retrocesso, colocaremos em risco a segurança alimentar e o abastecimento de água em todo o mundo.

  • Qu Dongyu é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura

A FAO é o organismo responsável pela celebração mundial do Dia Internacional das Montanhas, coordenada pela Secretaria da Aliança para as Montanhas, que recebe apoio financeiro dos governos de Andorra, Itália e Suíça. A Secretaria trabalhou em estreita colaboração com a UNESCO e a Organização Meteorológica Mundial, no Ano Internacional da Conservação das Geleiras (2025)

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