
Você pode não sentir nada. Nenhuma dor, nenhum sintoma evidente. Ainda assim, o seu coração pode estar sendo afetado. O consumo regular de cerveja está associado a uma série de alterações silenciosas no sistema cardiovascular — mudanças que evoluem de forma discreta e só costumam aparecer quando o quadro já está mais avançado.
Segundo o cardiologista João Poeys Júnior, do Hospital DF Star, o principal risco está justamente na ausência de sinais iniciais.
“O efeito direto do álcool no coração aumenta o risco de arritmias, que podem ser assintomáticas, e da dilatação do coração, que normalmente só manifesta sintomas em estágio avançado.”
Essa progressão silenciosa é o que torna o problema ainda mais perigoso. Muitas pessoas seguem consumindo a bebida sem perceber que o organismo já está sob impacto.
Além das alterações estruturais no coração, o álcool interfere em diversos marcadores metabólicos ligados ao risco cardiovascular. O aumento dos triglicerídeos e do HDL-colesterol impactam na elevação da pressão arterial e esteatose hepática, fatores esses que favorecem o surgimento de placas de gordura nas artérias do coração
Um dos pontos que mais chama atenção hoje na comunidade médica é a revisão do conceito de consumo “seguro”. A ideia de que pequenas quantidades poderiam proteger o coração vem sendo cada vez mais contestada.
Segundo o cardiologista, não há evidências robustas para determinar um nível seguro de consumo de cerveja ou de qualquer outra bebida alcoólica. Com o uso frequente — especialmente em maior volume — o corpo passa a ativar mecanismos que elevam ainda mais o risco, mesmo que o paciente não perceba.
“O consumo crônico e elevado de cerveja pode ativar sistemas como o nervoso simpático e o sistema renina-angiotensina-aldosterona, elevando a pressão arterial.”
Essas alterações vêm acompanhadas de outros efeitos que contribuem para a sobrecarga do sistema cardiovascular. Como a retenção de sódio e água, a disfunção endotelial e o ganho de peso. Outro fator que pode enganar é a interpretação de exames e sinais momentâneos do corpo. Em alguns casos, o consumo de cerveja pode dar a falsa impressão de benefício.

Na prática, porém, o efeito é oposto no longo prazo, principalmente em relação ao ritmo cardíaco. Ainda segundo o cardiologista, a cerveja aumenta o risco de arritmias cardíacas, principalmente a fibrilação atrial, responsável por cerca de 25% dos casos de AVC isquêmicos.
Com o tempo, esse conjunto de alterações silenciosas tende a se somar a outros fatores de risco comuns no dia a dia. “Muitos desses pacientes são sedentários e têm obesidade visceral, aumentando o risco de alterações no colesterol, glicose e gordura no fígado.”
