
Pela primeira vez, pesquisadores da Nasa observaram um cometa desacelerar até quase parar e, em seguida, voltar a girar no sentido oposto. O fenômeno foi registrado pelo cometa 41P/Tuttle-Giacobini-Kresák, em 2017, logo após a sua passagem pelo Sol. Detalhes da observação foram descritos em um artigo publicado na revista The Astronomical Journal na última quinta-feira (26).
Segundo dados do Telescópio Espacial Hubble, em março, o corpo celeste girava em um ritmo considerado normal. Dois meses depois, em maio, ele já estava três vezes mais lento. Meses mais tarde, voltou a acelerar, mas na direção contrária à original.
Os especialistas acreditam que o cometa 41P provavelmente se formou no Cinturão de Kuiper, uma região distante do Sistema Solar repleta de corpos gelados. Em algum momento, ele teria se deslocado pela gravidade de Júpiter para a órbita atual, passando a visitar a região interna do Sistema Solar a cada 5,4 anos. Estima-se que o corpo celeste esteja nessa trajetória há cerca de 1.500 anos.
O que fez o cometa mudar seu giro?
A explicação para tal ocorrência envolve um processo relativamente simples, embora pouco intuitivo. Quando um cometa se aproxima do Sol, o calor faz com que o gelo em sua superfície passe diretamente para o estado gasoso, em um fenômeno chamado de sublimação.
O gás tende a escapar em forma de jatos, como pequenos “sopros” que empurram o corpo no espaço. Se esses jatos saem de forma desigual, é possível que eles funcionem como propulsores desbalanceados. Dessa forma, eles podem frear o giro original e acabarem forçando o cometa a girar no sentido contrário.
“É como empurrar um carrossel”, exemplifica David Jewitt, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles e autor da pesquisa, em comunicado. “Se ele estiver girando em uma direção, e você empurrar contra essa direção, você pode diminuir a velocidade e inverter o sentido de rotação.
As observações do Hubble indicam que foi exatamente isso que ocorreu: o cometa desacelerou progressivamente até quase parar e, em seguida, foi forçado a girar na direção oposta por esses jatos de gás.
Objeto pequeno e vulnerável
Outro fator decisivo para a ocorrência do fenômeno foi o tamanho do cometa. O núcleo do 41P tem cerca de 1 km de diâmetro — aproximadamente três vezes a altura da Torre Eiffel, na França. Em termos astronômicos, isso é considerado muito pequeno.
Da mesma forma, por ter pouca massa e baixa gravidade, ele é mais sensível a forças externas. Assim, os jatos de gás conseguem alterar sua rotação de maneira muito mais intensa do que ocorreria em um cometa maior.
Esse tipo de núcleo também tende a ser irregular, o que contribui para a emissão desigual dos jatos. Isso reforça ainda mais o efeito de “empurrão” desbalanceado.
Sinais de desgaste acelerado
Além da mudança de rotação, os cientistas identificaram que o cometa está menos ativo do que no passado. Em 2001, ele apresentava uma liberação de gás relativamente intensa para seu tamanho. Já em 2017, essa atividade havia caído cerca de dez vezes.
Isso sugere que sua superfície está mudando rapidamente. Entre as hipóteses estão o esgotamento de materiais voláteis (como gelo) próximos à superfície ou a formação de uma camada de poeira que “isola” o interior, dificultando a liberação de gás.
Tais transformações indicam que o cometa está evoluindo e, possivelmente, sendo degradados em um ritmo incomum. Normalmente, alterações estruturais em cometas acontecem ao longo de séculos ou até milênios. Mas, no caso do 41P, mudanças significativas foram registradas no intervalo de alguns meses.
Modelos baseados nas medições de rotação e perda de massa indicam que esse comportamento pode ter consequências dramáticas. Se o cometa continuar acelerando seu giro, a força gerada pode superar sua fraca gravidade, levando à fragmentação ou até à desintegração completa.
