
Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, questiona as orientações tradicionais da Organização Mundial da Saúde (OMS) ao indicar que a ejaculação mais frequente pode melhorar a qualidade do esperma e, potencialmente, aumentar as chances de fertilização. As conclusões foram descritas em um artigo publicado nesta quarta-feira (25) na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences.
Atualmente, a OMS recomenda entre dois e sete dias de abstinência antes da coleta de sêmen para exames ou procedimentos de reprodução assistida. Segundo a autoridade de saúde, esse intervalo maximizaria a contagem de espermatozoides. No entanto, a nova pesquisa sugere que tal janela pode ser excessiva quando o objetivo é priorizar a qualidade do esperma, e não apenas a sua quantidade.
Para chegar aos seus resultados, o grupo analisou dados de 115 estudos com 54.889 homens, além de 56 pesquisas envolvendo 30 espécies animais. Assim, verificou-se um padrão consistente: o esperma armazenado no organismo tende a se deteriorar com o tempo, em um fenômeno conhecido como senescência espermática pós-meiótica. Isso está associado a danos ao DNA, aumento do estresse oxidativo e redução da motilidade e viabilidade dos espermatozoides.
"Como os espermatozoides são altamente móveis e possuem pouco citoplasma, eles esgotam rapidamente suas reservas de energia e têm capacidade limitada de reparo”, explica Rebecca Dean, pesquisadora da Universidade de Oxford e coautora do artigo, em comunicado à imprensa. “Nosso estudo destaca como a ejaculação regular pode proporcionar um pequeno, porém significativo, aumento na fertilidade masculina.”
Os dados analisados reforçam que períodos prolongados sem ejaculação tendem a agravar esses efeitos. “Nos homens, os efeitos negativos que encontramos sobre os danos ao DNA dos espermatozoides e os danos oxidativos foram consideráveis. Então, estamos confiantes de que este é um efeito biologicamente significativo e importante”, destaca Krish Sanghvi, principal autor do estudo, em entrevista ao jornal The Guardian.
Qualidade versus quantidade
Historicamente, as diretrizes médicas priorizaram a concentração de espermatozoides nas amostras, o que favorece períodos mais longos de abstinência. No entanto, essa lógica pode não refletir o cenário mais relevante para a fertilização.
“Se a quantidade de espermatozoides for o único fator relevante, então a abstinência sexual não é necessariamente algo ruim”, afirma Sanghvi. “Mas, geralmente, o sucesso da fertilização é determinado não apenas pela quantidade, mas também pela qualidade deles.”
Essa distinção ganha importância especialmente em técnicas como a fertilização in vitro (FIV), nas quais a integridade genética e a motilidade dos espermatozoides desempenham papel central. Evidências recentes indicam que a coleta de sêmen após menos de 48 horas de abstinência pode melhorar significativamente os resultados desses procedimentos.
Um ensaio clínico, cujos resultados foram antecipados em um pré-print publicado em dezembro de 2025 na revista The Lancet, reforça essa hipótese ao indicar que, entre 453 casais submetidos à FIV, a taxa de gravidez foi de 46% quando os homens se abstiveram por menos de dois dias, contra 36% entre aqueles que seguiram o intervalo tradicional de dois a sete dias.
Implicações evolutivas
O estudo também amplia a compreensão sobre como o armazenamento de espermatozoides varia entre os sexos. Em diversas espécies, as fêmeas apresentam maior capacidade de preservar a viabilidade espermática ao longo do tempo, graças a adaptações evolutivas específicas.
“Isso provavelmente reflete a evolução de adaptações específicas do sexo feminino, como órgãos de armazenamento especializados que fornecem antioxidantes”, aponta a pesquisadora Irem Sepil, também no comunicado. Esses mecanismos podem, inclusive, inspirar avanços tecnológicos no armazenamento artificial de sêmen.
Já nos machos, o acúmulo prolongado de espermatozoides tende a resultar em uma população celular mais envelhecida e suscetível a danos. “Os ejaculados devem ser vistos como populações de espermatozoides individuais que passam por nascimento, morte, envelhecimento e mortalidade seletiva”, avalia Sanghvi.
Impacto clínico
Embora o estudo não proponha uma mudança imediata e universal nas diretrizes, ele levanta questionamentos relevantes para a prática médica. Os especialistas sugerem que médicos e pacientes reconsiderem a ideia de que a abstinência prolongada é sempre benéfica.
Para casais tentando engravidar naturalmente, um equilíbrio continua sendo necessário: intervalos muito curtos podem reduzir a contagem espermática, enquanto períodos longos podem comprometer a qualidade. Já em contextos clínicos, especialmente na reprodução assistida, a tendência é valorizar cada vez mais amostras de esperma coletadas mais recentemente.
Como resume Sanghvi: “A abstinência prolongada nem sempre é benéfica e é preciso encontrar um equilíbrio entre quantidade e qualidade”. As descobertas também podem influenciar não apenas a medicina reprodutiva humana, mas programas de conservação de espécies ameaçadas, ao oferecer novas estratégias para otimizar o uso de material genético.
