
Marte é conhecido pela poeira abundante, o terreno quase plano e pelos ventos persistentes que moldam sua paisagem há bilhões de anos. Um segredo que essas tempestades de poeira guardavam, porém, acaba de ser revelado em um estudo publicado na última sexta-feira (26/12) na revista Nature: elas produzem energia elétrica e em quantidade considerável.
A pesquisa recente identificou que os redemoinhos de poeira no planeta vermelho geram descargas eletrostáticas detectáveis. O achado sugere que processos elétricos atuam de forma ativa na dinâmica do planeta, modificando reações químicas, interferindo na circulação atmosférica e impondo novos desafios à exploração espacial do planeta vizinho, que está marcada para começar em 2030.
A descoberta ocorreu de forma inesperada durante observações de duas tempestades de poeira. O microfone do rover Perseverance, explorador da Nasa, captou sinais considerados excepcionais e que não pareciam corresponder apenas ao vento. O equipamento foi o primeiro a ter um microfone e a operar em Marte.
Pesquisadores franceses examinaram os registros acústicos e concluíram que eles eram fruto das descargas elétricas produzidas pelo atrito entre partículas de poeira.
Apesar de previsões teóricas antigas, essa foi a primeira observação direta de eletricidade atmosférica em Marte. O estudo confirma que campos elétricos marcianos atingem níveis capazes de romper a atmosfera próxima à superfície.
As faíscas surgem quando grãos microscópicos de poeira colidem e se friccionam continuamente. Em determinado ponto, ocorre liberação dessa energia na forma de pequenos arcos elétricos. Cada descarga possui apenas alguns centímetros de extensão. Mesmo assim, essas faíscas geram ondas de choque que podem ser captadas pela sua grande quantidade.
Na Terra, partículas de poeira também acumulam carga elétrica, sobretudo em regiões desérticas, mas apenas em grandes tempestades é possível mensurar sua presença, já que a atmosfera terrestre é mais densa e rica em oxigênio e nitrogênio, o que exige mais energia para gerar faíscas.
A atmosfera marciana é extremamente rarefeita e composta majoritariamente por dióxido de carbono, o que favorece a formação de arcos elétricos.
A presença de eletricidade em tempestades de poeira tem implicações relevantes para a química de Marte. Esse processo favorece a formação de compostos altamente oxidantes que conseguem decompor moléculas orgânicas na superfície.
Essa descoberta pode ajudar a esclarecer um mistério antigo envolvendo o metano em Marte. O gás foi detectado repetidas vezes por diferentes missões. No entanto, desaparece em ritmo mais rápido do que modelos químicos tradicionais conseguem explicar. Reações impulsionadas por eletricidade gerada nas tempestades de poeira podem destruir o metano de forma acelerada.
Além do metano, outras moléculas atmosféricas podem ser afetadas. O aumento da capacidade oxidante da atmosfera influencia na preservação de compostos orgânicos, apagando registros de vida orgânica que pode ter existido na formação do planeta.
Isso traz implicações práticas para exploração espacial. Descargas elétricas podem interferir em instrumentos eletrônicos sensíveis a bordo de veículos robóticos. Para missões tripuladas, o fenômeno representa desafio de segurança, já que os sistemas precisarão ser projetados para lidar com ambientes eletricamente ativos. O estudo sugere que a eletricidade atmosférica deve ser considerada no planejamento de futuras operações humanas.
